Buenos Aires pelos passos de Borges

 

Lembro-me de numa manhã de Verão declinante ter apanhado um táxi à porta do número 1660 da rua Anchorena que acabara de visitar, em Palermo Viejo, onde Jorge Luis Borges viveu entre 1938 e 1946, e que naquela manhã foi, também para mim, uma espécie de casa de Asterión como a do conto homónimo onde «todas as partes [...] existem muitas vezes [e] qualquer lugar é outro lugar. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor é do mundo».

Dali, da casa de Asterión, que me fora revelada na sua perfeita ubiquidade, fui nos passos de Borges até ao outro lado da cidade, ao café Tortoni, na Avenida de Mayo, onde o escritor costumava parar a caminho da Biblioteca Nacional. Num dos espelhos que ali se encontram para multiplicar o número daqueles que ali vão à procura de Borges pareceu-me vê-lo reflectido com O Livro de Areia debaixo do braço. Recordei-me dos enigmas e maldições dos espelhos e seus duplos vistos por Bioy Casares no conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius onde «declarara que os espelhos e as cópulas são abomináveis porque multiplicam o número de homens». Na ocasião, pus-me a pensar que se aquele homem cuja imagem fantasmal eu via reflectida no espelho fosse realmente Borges, para onde iria ele naquela manhã de Verão declinante? (...)*

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Montevideu

 

Fui a Montevideo, sem outras referências que não as da topografia literária de Benedetti que escolhi para me guiar na cidade. Fui, também, porque tinha lido os romances aflitos de Juan Carlos Onetti passados em Santa Maria, a cidade ficcional fundada em A vida breve com fragmentos de Montevideu, Colónia do Sacramento e Buenos Aires, e que estende, depois, pelos romances El astilleroJuntacadáveres e Dejemos hablar el viento, inaugurando uma cartografia imaginária que viria a caracterizar a literatura latino-americana, de que a Macondo de Gabriel García Marquez ou a Comala de Juan Rulfo são expressão ficcional máxima. Fui, ainda, para descobrir um tal Mario Levrero, “irmão mais novo de Kafka” (como ele próprio se definia) - e que alguém já comparou a Roberto Bolaño -, autor de narrativas fantásticas e autoficcionais, como La novela luminosa. E sim, fui porque, talvez, por lá ainda andasse o fantasma de Isidore Ducasse que sob o pseudónimo de Lautréamont escreveu Os Cantos de Maldoror. Fui porque me disseram que Eduardo Galeano estaria à minha espera, no Café Brasilero, sentado numa mesa junto à janela, com a sua “memória de fogo” e de futebol. E fui, finalmente, porque recentemente havia lido uns misteriosos contos passados num quarto de hotel espectral e meteu-se-me na cabeça a ideia de lá pernoitar imitando os personagens inventados por Julio Cortázar e por Adolfo Bioy Casares, respectivamente, em La puerta condenada e em Un viaje ou el mago inmortal (...)*

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Havana para um Infante defunto

 

Há em Havana, no Vedado, uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante. E, depois, em Havana para um Infante Defunto (1979), título inspirado na "Pavane Pour une Infante Défunte" de Ravel, tocada ali com os dedos amarelados pelo vício do Puro Fumo e dançada, umas vezes, ao ritmo vagaroso e nostálgico de um bolero, outras vezes, ao compasso lânguido de uma habanera, ressoando “eterna na melodia da memória" autoficcionada da cidade perdida “tão capital como [o] pecado" que nela mora, como Cabrera Infante escreve em Mea Cuba.

E, a partir daí, desde La Rampa, também eu me perdi na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do tilintar dos copos de rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana insular, “com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado”. (...)*

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Diário chileno

 

Chego a Santiago do Chile vinte e seis horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios art deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compõem o mix arquitectónico de Santiago do Chile. A interminável Alameda Bernardo O’Higgins, enquadrada pela cordilheira nevada, abre-se diante dos meus olhos como uma corrente de luz, vinda da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris.

 

Na calçada, homens apressados de fato e gravata, grupos de jovens estudantes uniformizados, carabineros, compõem um quadro aparentemente conservador, militarizado, coincidente com a minha representação de Santiago. À direita, ergue-se o Cerro de Santa Lúcia, onde o fundador de Santiago, Pedro de Valdivia, sediou em 1541, o seu acampamento. Na esquina Ahumada vislumbro uma cidade mercantil, confusa, uma corrente humana cruzando-se indiferente.  (...)*

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Istambul pelos passos de Orhan Pamuk

 

Fui a Istambul pelos passos de Orhan Pamuk, perseguindo uma cidade secreta, descrita «em dois tons, como a cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias a preto e branco» do fotógrafo ístanbullu Ara Güler, cujos clichés haveria de encontrar na subida de uma colina íngreme que conduz à Praça de Galatasaray, em Beyoğlu, no Kafe Ara, antiga farmácia do seu pai, onde o mestre de 81 anos se sentava todas as tardes, guardando no “arquivo” de três andares “mais de dois milhões de negativos e transparências, só de Istambul”.

 

Fui em busca de uma cidade desaparecida ou, pelo menos, invisível ao olhar do turista ocasional, mas que é capaz, ainda, de se revelar ao viajante que ousa «perder-se [nela] tal como é possível acontecer num bosque» - o que, como escreveu Walter Benjamin, «requer instrução» -,  ou como um leitor que numa biblioteca em desordem sabe que encontrará o que não procurou. 

 

Fui como um expedicionário das memórias alheias que me chegaram através das páginas lentas, proustianas, do livro Istambul: Memórias de uma cidade, de Orhan Pamuk, escrito num pequeno apartamento com vista para o Bósforo, no Bairro Cihangir, e que constituíram a minha prévia e necessária «instrução» para me perder na cidade nervosa, simultaneamente real e onírica. (...)*

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Passagens de Damasco

 

O souk al-Hamidia, com a sua passagem coberta por um telhado metálico com inúmeras aberturas que deixam penetrar os raios de sol criando o efeito de um céu estrelado na penumbra interior, revela-se demasiado irresistível, oferecendo-me a possibilidade de refúgio face ao caos das ruas circundantes.

 

Eis a experiência de uma outra Damasco que alimenta o olhar, a memória e a imaginação prometidos em As Mil e Uma Noites por Xerazade a Harun al-Raschid, num códice que circulou na Síria no século XIII e foi lido por califas, vizires, vendedores e mercadores. Como o flâneur baudelairiano de que fala Walter Benjamin, no meu passeio ocioso procuro, agora, «virar para fora o forro incandescente e colorido do tempo» e, momentaneamente liberto da «ameaça síria», praticar uma observação ao mesmo tempo distraída e atenta, absorta e disponível, celebrando o olhar como se o bazar otomano que percorro, construído em 1863 pelo sultão Abdulhamid, fosse o sujeito activo desta flânerie oriental que me vai revelando um mundo fervilhante de sensações adormecidas, paralelo ao caos ruidoso, incandescente e ameaçador das ruas exteriores. (...)*

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