Porque toda a viagem começa antes da partida, perguntei ao escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez como era o bairro de Bogotá que me vai receber e ele diz-me que a "A Candelaria profunda é um lugar fora do tempo: em toda a Bogotá apenas em certas ruas dessa zona é possível imaginar como era a vida um século antes". (Juan Gabriel Vásquez, "O barulho das coisas ao cair").

"Bogotá, como todas as capitais latino-americanas, é uma cidade móvel e cambiante, um elemento instável de sete ou oito milhões de habitantes: aqui fechamos os olhos um certo tempo e pode muito acontecer que ao abri-los nos achemos rodeados por outro mundo (a loja de ferragens onde ontem se vendia chapéus de feltro, a loja da sorte onde um sapateiro fazia consertos). Assim é o bairro de La Candelária." - Juan Gabriel Vásquez, in "O barulho das coisas ao cair"

Na Puerta Falsa ganhámos forças com tamales e chocolate, tirei o retrato na Praça Bolivar, almoçámos um "ajiaco" e deixámo-nos guiar por Juan Vasquez . Ao anoitecer, na livraria no Centro Cultural Gabriel Garcia Márquez, assistimos à apresentação de um livro sobre Juan Rulfo e descobri o autor colombiano Roberto Burgos Cantor cujo recente e premiado romance "Ver lo que veo" nos há-de guiar em Cartagena.

Guiado(s) por Juan Gabriel Vásquez, (in "A forma das ruínas"), fui, fomos, no rasto do político liberal Jorge Eliécer Gaitán, assassinado em 1948, a que se seguiu uma onda de violência: "Costumava começar no Café Pasaje, tomando um café com um cheirinho, e depois atravessava a Praça do Rosário e caminhava para oriente pela Rua 14, onde o poeta José Asunción Silva se matou com um tiro no coração em 1896."

"Depois,segui para sul [...] pela Rua 10, dando passos cuidadosos sobre os paralelos que cobrem essa rua como tartarugas mortas, e caminhando devagar rente à janela pela qual saltou Simón Bolívar na nefasta noite em que um bando de conjurados entrou em sua casa brandindo espadas e tentou assassiná-lo no seu próprio quarto; desembo[quei] na Séptima, nas imediações do capitólio, diante das duas placas de mármore que, com certa redundância incómoda, lamentavam o crime do general Rafael Uribe Uribe"

"A seguir, [fiz] mais quatro quarteirões para norte, até chegar à frente do desaparecido edifício Agustin Nieto, ou melhor, até ao local do passeio onde caiu assassinado Jorge Eliécer Gaitán." (Juan Gabriel Vásquez,in "A forma das ruínas").

"Todo o habitante de Bogotá de uma certa idade tem uma foto de rua, a maioria delas tiradas na Séptima, antiga Calle Real del Comercio, rainha de todas as ruas de Bogotá; a minha geração cresceu a olhar para essas fotos nos álbuns de família, para esses homens de fato de três peças, para essas mulheres de luvas e chapéu-de-chuva, gente de outra época em que Bogotá era mais fria e mais chuvosa e mais doméstica embora não menos árdua". (Juan Gabriel Vásquez, " O barulho das coisas ao cair")

Embora, eu não tivesse vestido um "fato de três peças" nem a Graça Ventura estivesse de "luvas e chapéu-de-chuva" - e não se encontrando por ali, "tapados com um manto negro, não porque o seu aparelho assim o exigisse, mas porque era isso que os clientes esperavam" (ibidem), "fotógrafos sobreviventes de outros tempos, quando nem toda a a gente conseguia produzir o seu próprio retrato" -, ainda assim, pedi à Graça que me tirasse esta foto para guardar no meu álbum de família.

Em trânsito de regresso a casa, eu e a Graça passámos a tarde em Bogotá e guiados pelos nossos amigos bogotanos Claudia Patricia Rodríguez Zárate e Cesar Fernando Garzón Paipilla, subimos a Monserrate e depois adentrámo-nos pela Candelária profunda (Chorro de Quevedo, Calle del Embudo) onde numa "chicheria" bebemos "chicha" .

Na Calle del Embudo, um cartaz à porta da chichería avisava que “Sí, hay chicha”, a bebida tradicional indígena à base de milho fermentado, proibida pelos espanhóis, mas tão resiliente que hoje é muito popular entre estudantes, mesmo que seja nas suas versões “coloridas”, ou seja, light (com sabor a uvas, morangos, cerejas).

Ao cerro de Monserrate (3215 metros) vai-se num funicular que nos eleva sobre a cidade ou nos empareda em túneis de pedra - embora haja quem suba como rotina de exercício físico e não senta falta de ar lá em cima.

Com Claudia Patricia Zárate e Cesar Garzón Paipilla, em Monserrate; de um lado, a cordilheira oriental dos Andes, e do outro, atras de nós, Bogotá inteira, com a Plaza Bolívar, mais perto da encosta, antes se transformar num mar cinzento e indistinto encoberto pela neblina.

Guiados por Caro Carvajal em cujo bnb ficámos alojados em Bogotá, fomos a Villa de Leyva, "Pueblo Património de Colômbia". Os seus edifícios coloniais, a sua enorme praça e os cerros desérticos que rodeiam fazem deste "pueblo" um destino imperdível da Colômbia.

Com 14.000 m2, a Plaza Mayor de Villa de Leyva é uma das maiores da Ibero-América. Nesta praça empedrada destaca-se uma fonte e Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

Num dos cafés que dão para a Plaza Mayor bebendo umas Club Colombia bem fresquinhas.

Ruas estreitas, empedradas, ladeadas por casas coloniais de um ou dois pisos, de paredes brancas, algumas com varandas de madeeira de influência mourisca.

Ruas estreitas, empedradas, ladeadas por casas coloniais de um ou dois pisos, de paredes brancas.

Ruas estreitas, empedradas, ladeadas por casas coloniais de um ou dois pisos, de paredes brancas.

Noutras casas descobrimos jardins interiores que guardam verdadeiros tesouros da flora da região.