Em Palermo Viejo, na esquina das ruas Borges e Guatemala, entro como um "compadrito" no El Preferido, um velho bar-restaurante-mercearia: “un almacén rosado como revés de naipe / brilló y en la trastienda conversaron un truco; / el almacén rosado floreció en un compadre, / ya patrón de la esquina, ya resentido y duro”. (Jorge Luis Borges, "A fundação mítica de Buenos Aires")

Apanho um táxi junto ao número 2135 da calle Serrano, em Palermo Viejo, onde Jorge Luis Borges viveu entre 1901 e 1914, e que naquela manhã foi, também para mim, uma espécie de "casa de Asterión", como a do conto homónimo, onde «todas as partes [...] existem muitas vezes [e] qualquer lugar é outro lugar.

Dali, da"casa de Asterion", que me fora revelada na sua perfeita ubiquidade, fui nos passos de Borges até ao outro lado da cidade, ao café Tortoni, na Avenida de Mayo, onde o escritor costumava parar a caminho da Biblioteca Nacional.

Num dos espelhos do café Tortoni que ali se encontram para multiplicar o número daqueles que ali vão à procura de Borges pareceu-me vê-lo reflectido com "O Livro de Areia" debaixo do braço.

BsAs

Na ocasião, pus-me a pensar que se aquele homem cuja imagem fantasmal eu via reflectida no espelho fosse realmente Borges, para onde iria ele naquela manhã de Verão declinante? Segui, por isso, os seus passos fantasmais.

Caminhando pela avenida de Mayo, pareceu ver através da vitrine do Café London City Julio Cortázar escrevendo o seu romance "Los Premios. Sentei-me na mesa ao lado daquela onde Cortázar se costumava sentar e, como um "premiado" pedi um Indian Tonic.

bsAs.Biblioteca Miguel Cane

No Club del Vino (calle Cabrera, Palermo Viejo) numa noite de copos, tapas e nuevo tango.

Através de ruas empedradas, chego a San Telmo onde reside "a essência original de que Buenos Aires é feita, a forma universal ou ideia platónica" (Jorge Luis Borges, "Buenos Aires en tinta china").

BsAs.Dorrego

Esquinas com mercearias, cafés e bares de tango e literatura, como o centenário Bar Dorrego na praça com o mesmo nome.

BsAs.San Telmo, Pl. Dorrego6

Nas tendas que se amontoam na praça Dorrego há discos de tango de 78 rotações, livros e revistas esgotadas, mapas e posters e cartazes de Gardel, Evita, Che e Maradona...

Ao contrário de Borges que "não sei porquê [...] tinha um desprezo por La Boca, [fui lá] e achei que era lindíssimo". (Adolfo Bioy Casares)

Apanho o colectivo 152 e ignorando o desprezo que Borges tinha pelo bairro, sigo o conselho de Adolfo Bioy Casares e vou a La Boca.

Gente de La Boca: tangueros, jugadores de pelota, compadritos...

BsAs.La Boca

A caminho do estádio La Bombonera, junto-me aos "xeneizes", a claque do Boca Juniores, vindos de escondidos quarteirões favelados, que vai tomando conta do bairro ao som do rufar de bombos e gaitas da claque “La 12”.

Em “La Bombonera" assisto no meio dos xeneizes à partida entre o Boca e o Racing e confirmo que "La Bombonera no tiembla, late" como no "Fervor de Buenos Aires".

BsAs.La Bombonera

La Bombonera, o mais mítico estádio do mundo, onde Maradona nasceu para o futebol.

Uma ruazinha por onde antes passava um antigo ramal ferroviário entre velhas casas construídas com chapas de zinco pintadas com cores garridas.

BsAs-Palermo, Pl. Cortázar
BsAs.Florida, Galerias Pacifico1

Parrilla em "Siga La Vaca" Puerto Madero.

BsAs.Puerto Madero

Em Puerto Madero, na "Doca Sul, de onde outrora zarpavam o Saturno e o Cosmos" (Jorge Luis Borges, "Elogio da Sombra") levando Borges e a sua família até ao outro lado do Rio da Prata, a Montevideu, onde também nós iremos.

Na Praça de Mayo, com a Casa Rosada ao fundo
Na cafetaria da libreria Ateneo
Pelo Delta do Tigre acima.