• João Ventura

A última viagem do "viajante surpreendente"

Há uns anos, num passeio pela costa da #Bretanha, dei comigo na baía de #Morlaix (Finisterra), em Trostériou, com o olhar perdido entre enseadas e ilhotas, navegando à vista numa mistura de terra e água, junto a uma casa de pescador envolta num manto de hortênsias azuis, a meio caminho entre quintas e a orla marítima de Térénez, um pequeno porto de pesca, viveiros de ostras. Porque a maré estava baixa era visível a faixa de areia que liga o continente à ilha de Stérec.


Não sabia eu, na altura, que aquela mistura de terra e água guardava o segredo dos sonhos de #MicheldeBris, que nascera e fora criado naquela casa envolta em hortênsias donde se avistava a ilha de Stérec, o pequeno mundo para onde, em criança, aproveitando a maré baixa que deixava aberto o caminho de areia até à ilha se escapava e uma vez lá se imaginava Stevenson na #IlhadoTesouro. Tivesse eu sabido que aquele era o território de infância de Michel Le Bris, e talvez, à tardinha, naquele restaurante no pequeno porto de Térénez, eu me tivesse imaginado à mesa com ele diante daquela travessa de ostras, ameijoas, navalheiras e lagostins que me puseram na mesa e o escutasse dizendo-me: "Passei toda a minha infância na baía de Morlaix, [aqui neste] porto de Plougasnou, [onde] tanto sonhei com o mundo. O oceano, essa força poderosa é a grande paixão da minha vida. [Aqui], neste lugar onde a terra e o mar se mordem, o oceano é a minha respiração."


E Michel Le Bris ter-me-ia falado do apelo eterno da sua Bretanha natal, em particular da baía de Morlaix, e também do apelo nómada que o tornou um "étonnant voyageur" (surpreendente viajante), primeiro indo nos passos de #RobertLouisStevenson, #JackLondon e dos exploradores de ouro numa viagem de três meses pela América, e depois o levou a fundar com o escritor marselhês #JeanClaudeIzzo, em 1990, em #SaintMalo, o Festival ÉtonnantsVoyageurs, cujo nome foi inspirado num poema de Baudelaire. Ter-me-ia, certamente falado das suas inesgotáveis paixões de estudo: o romantismo alemão e Robert Louis Stevenson. E com ele eu teria viajado à volta de uma mesa. Como com ele viajaram pelo mundo todos aqueles que durante trinta anos tiveram o privilégio de assistir à sua maior e eterna viagem, o Festival Étonnants Voyageurs que, em 2020, se não fosse a pandemia que a todos obriga ao sedentarismo, celebraria a sua 30ª edição.


Michel Le Bris (1944-2020) - com quem não cheguei a sentar-me à mesa num restaurante à flor da água na baía de Morlaix - que foi jornalista, produtor, editor, estudioso de Louis Robert Stevenson e do romantismo alemão, apaixonado por histórias de piratas e por livros de aventuras, e foi ele próprio escritor de livros de viagens morreu ontem, mas o festival que criou em Saint Malo para todos os viajantes nómadas e viajantes sedentários por territórios de papel continuará, como ele escreveu no manifesto fundador, “aberto à literatura viageira, aventureira, aberta ao mundo, orgulhosa de se dar a ler”, “chamando a si todos os filhos de Stevenson e de #Conrad de todo o mundo”.


(Foto: ©Ulf Andersen / Aurimages / AFP)



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