• João Ventura

A Viena dos cafés

Viena, capital do império habsburguiano em cujos cafés - Sperl, Landtmann, Hawelka, Griensteidl, Braunerhof, Central - Stefan Zweig descreve, em Mundo de Ontem, como "uma instituição especial, que não pode ser comparada a nenhuma outra em qualquer outro lugar do mundo. Um tipo de clube democrático, onde basta comprar uma chávena barata de café para participar, onde cada convidado para esse pequeno Obolus pode ficar por horas sentado, a discutir, escrever, jogar cartas, receber seu correio e, acima de tudo, consumir um número ilimitado de jornais e revistas."

A Viena dos cafés onde nos anos da vertigem que prenunciaram e haveriam de confirmar a desintegração do império - e do mito - habsburguiano se sentavam "os homens que duvidavam que o seu mundo pudesse ter um futuro e não queriam resolver as contradições do velho império mas antes diferir a sua solução", como escreve Claudio Magris no seu monumental romance-ensaio Danúbio. Gustav Klimt e Egon Schiele no Sperl, pagando com desenhos o que consumiam. Freud no Landtmann, dando lições até ao entardecer a quem o quisesse ouvir, sobre a interpretação dos sonhos. Stefan Zweig e Hoffmannsthal no Griensteidl, escrevendo um libreto para Richard Strauss. Elias Canetti no Hawelka, numa nuvem de fumo, observando, no outro lado da rua, a casa de penhores evocada em Auto de Fé. Karl Kraus no Central, situando nele a "estação meteorológica do fim do mundo". Joseph Roth de passagem pelo Central na sua Fuga sem Fim. Todos eles homens sem qualidades "que querem estar sós, mas que necessitam de companhia para fazê-lo", como declarou Alfred Polgar: "isto não é um café como os outros, mas uma exposição mundial, uma exposição na qual o seu conteúdo mais importante é não ver o mundo".


Ainda o Central em cujas mesas habitava Peter Altenberg, "o poeta sem casa, que gostava dos quartos anónimos e das pensões e de postais ilustrados", para escrever as suas incendiárias parábolas, anotações breves de deslumbramento ou de sombra, epifanias através das quais a vida revela a sua graça ou o seu vazio e a História mostra através das suas invisíveis fissuras os sinais contraditórios do seu crepúsculo por vir - e onde, um dia, julguei tê-lo visto à porta saudando quem entrava e saía, mas que se revelou ser, afinal, um seu manequim em papel maché. E onde, também, se sentava Leo Bronstein, nome pelo qual era conhecido Trotski que, como conta Claudio Magris, terá suscitado a seguinte reacção de um político austríaco à denuncia de preparativos revolucionários em curso na Rússia: "E quem fará a revolução, na Rússia? Talvez esse senhor Bronstein que passa todo o dia no Café Central?"


Cafés vienenses transformados num teatro kafkiano de Oklahoma onde homens "exaltados ou visionários" representam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre" - para utilizar a fórmula utilizada por Hermann Broch para descrever o modo como os austríacos viveram o nihilismo de fin de siècle - ora afrontando como O homem sem qualidades de Robert Musil a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem.


Nos cafés de Viena morria a velha Áustria e com ela morria também a transcendência dos seus cafés literários que, embora ainda lá se encontrem, já não são habitados pelos homens musilianos "exaltados" ou "visionários", mas antes por epígonos nostálgicos, visitantes refinados e turistas fetichistas que se passeiam, contemplativos à sua maneira, entre mesas sem aura.

Café Central, Viena

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