• João Ventura

Cartagena das Índias pelos passos de Gabriel García Márquez

Atualizado: Mar 7

Hoje levantei-me com os primeiros galos do realismo mágico, e caminhando desde Getsemani, o bairro boémio de #CartagenadasÍndias, para onde me retirei em jornada de quarentena ficcional, esperançoso de trazer, depois, de Macondo, a fórmula alquímica inventada pelo cigano Melquíadas nos Cem Anos de Solidão para a cura do vírus que nestes tempos da cólera nos ameaça, fui ao encontro de #GabrielGarcíaMárquez [6 de março de 1927 Aracataca, Colômbia - 17 de abril de 2014, Cidade do México] que me esperava junto ao alfarrabista situado na Puerta del Reloj, para, juntos, passarmos o dia do seu 94º aniversário.


De tanto ter lido Gabriel García Márquez contando sobre Cartagena, transposta que foi a Puerta del Reloj, “identifiquei de imediato a praceta [que agora se chama Portal de los Coches], onde estacionavam os carros de cavalos e as carroças puxadas por burros e, ao fundo, a galeria de arcadas onde o comércio popular se tornava mais denso e buliçoso”.


- “Durante a colónia [explicou-me Gabo] chamou-se o Portal de los Mercaderes. Da[qui] se manobravam os fios invisíveis de escravos e se cozinhavam os ânimos contra o domínio espanhol. Mais tarde foi chamado Portal de los Escribanos, por causa dos calígrafos taciturnos, com casacos de lã e mangas-de-alpaca, que escreviam cartas de amor e todo o género de documentos para os iletrados pobres”, e que haveriam de inspirar Florentino Ariza, o paciente amante despeitado d´ O Amor nos Tempos da Cólera.


Gabo desafiou-me a tirarmos um retrato com as palenqueras, aquelas mulheres bonitas, descendentes de escravos, vestidas de arco-íris, que atrás de uma exótica banca de frutos caribenhos nos desafiavam. “Uma negra feliz com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa [vendo que eu era um passeante estrangeiro] ofereceu-[me] um triângulo de ananás espetado na ponta de uma faca de cortador. [...] Peguei-[lhe], me[ti]-o inteiro na boca, sabo[reei]-o e, estava a saboreá-lo com o olhar errante pela multidão", quando Gabo me chamou a atenção para um jovem que, dissimuladamente, espiava com ar maravilhado uma jovem que andava às compras com a criada, seguindo, depois, no seu encalço ora aos encontrões ora tropeçando sem fôlego nas seiras da criada. Era Florentino Ariza perseguindo até à velhice Fermina Daza, n´O Amor nos Tempos da Cólera.


Submergimos depois [através das arcadas] na “algaraviada quente dos engraxadores e dos vendedores de pássaros, dos alfarrabistas, dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos gritos por cima da confusão os doces de nomes inventados pelas próprias, os sumos de coco e ananás para o rapaz, os de coco para os loucos e os de canela para a Micaela.” Mais adiante, “cativado de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com o aspecto do sangue [que tinge a Crónica de uma Morte Anunciada], tintas com reflexos tristes para as mensagens fúnebres [enviadas n´ Os Funerais da Mamã Grande], tintas fosforescentes para se ler às escuras [como fez Florentino Ariza n´ O Amor nos Tempos da Cólera], tintas invisíveis que se revelavam com o brilho da luz” [n´ A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada]”. E embora ele as quisesse todas porque muitas eram as palavras que ainda queria escrever, acabei por lhe oferecer como prenda de aniversário o “frasquinho de tinta de ouro” com que Aureliano Buendía escreveu as prodigiosas palavras que reacendiam nos Cem Anos de Solidão a memória dos habitantes de Macondo para não sucumbirem à “peste da insónia”.


Gabo conduziu-me até junto das “doceiras sentadas por trás das enormes redomas e comprou seis doces de cada qualidade, apontando-os com o dedo através do vidro, porque não conseguia fazer-se ouvir no meio da gritaria: seis papos-de-anjo, seis de leite, seis de gergelim, seis de iúca, seis de chocolate, seis piononos, seis de goiaba, seis deste e seis daquele, seis de tudo!"


Fomos, depois, caminhando pelo casco histórico cuja toponímia evoca o ambiente d´ O Amor nos Tempos da Cólera. Na praça de Bolívar, sentámo-nos no mesmo banco onde, sem outro lugar para ficar, Gabo, na altura com 21 anos, pernoitou na noite da sua chegada a Cartagena, em abril de 1948, vindo de Bogotá, fugido do bogotazo (a revolta que se seguiu ao assassinato do político liberal Jorge Eliécer Gaitán). E recorda: “Bastou-me dar um primeiro passo dentro da muralha para vê-la em toda a sua grandeza à luz malva das seis da tarde, e consegui afastar o sentimento de ter voltado a nascer”. (Viver Para Contá-la).


Seguimos pela calle del Ladrinal, passando junto à Casa de las Ventanas onde morava Florentino Ariza e, em noites de insónias, escrevia as cartas de amor que enviava a Firmina Daza. E dali, ao segundo entardecer, caminhámos em direcção à muralha que dá para o mar do Caribe, deixando para trás as cúpulas das igrejas brilhando sob um céu cor de canela. E as bodegas coloniais onde - confessa Gabo - “bebíamos até o álcool das lâmpadas”.


Na esplanada do Café del Mar, sob o afago da brisa tropical, avistámos o romântico cais da baía de las Ánimas, onde ficava a empresa marítima onde trabalhava Florentino Ariza, cujos antigos barcos a vapor, 51 anos 9 meses e 4 dias mais tarde e quase 500 páginas adiante n´ O Amor nos Tempos da Cólera, inspiraram as arremetidas eróticas do eterno amante sobre Firmina Daza.


A caminho do bairro de Getsenami, ladeámos o molhe dos Pégasos, com a baía de las Ánimas ao nosso lado direito e os arranha-céus de Boca Grande erguendo-se ao fundo. Passámos junto do Centro de Convenções situado onde antes ficava o antigo mercado da cidade, evitando um cão de aspecto luciferino, não fosse ele o fantasma daquele que ali, naquele mesmo local, mordera a escrava María de Todos los Ángeles em Do Amor e Outros Demónios. Era também ali que o jovem Gabo observava o carregamento das gigantescas placas de gelo para a conservação dos alimentos. E logo ao lado, a plaza del Camellón de los Mártires, cercada pelas estátuas dos soldados independentistas fuzilados. Detalhes que – conta-me Gabo – muitos anos mais tarde, haveriam de inspirar o famoso arranque de Cem Anos de Solidão: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”.


(E uma vez que me acompanharam neste passeio com Gabo, se quiserem saber/e ver mais sobre Cartagena da Índias, sigam os meus passos na galeria de fotos sobre esta cidade na página A Vida Breve.



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