• João Ventura

Com Eça de Port Said a Suez

Atualizado: Mar 27

Naquele dia de Novembro de 1869, #EçadeQueiroz, na altura com 23 anos de idade, enquanto - juntamente com o seu amigo e futuro cunhado, D. Luís de Castro Pamplona, conde de Resende, que o convidara para uma viagem ao Egipto - se esforçava na estação do Cairo para apanhar um lugar na carruagem do comboio que o levaria a Alexandria, não sabia ainda que quase 23 anos mais haveria de escrever Os Maias. Sabia, porém, que ia a Alexandria para seguir, depois, de barco até Port Said para assistir à inauguração do Canal que ligaria Port Said, no Mar Mediterrâneo, a Suez, no Mar Vermelho. Ignorava também que, dois meses depois, já em Lisboa, seria desafiado pelo seu amigo e fundador do DN, Eduardo Coelho, a contar aos leitores tudo o que vira, e que haveria de ser publicado, entre os dias de 18 e 21 de Janeiro de 1870, na coluna “Folhetins do Diário de Notícias” (1), em quatro crónicas de viagem em forma de carta, com o título "De Port Said a Suez".


Na primeira crónica, publicada faz hoje 151 anos, Eça relata a atribulada viagem do #Cairo para #Alexandria e depois, de barco (o “Fayoum”) até Port Said: "Vínhamos do sossego do deserto e das ruínas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria, começámos a envolver-nos, bem a custo, naquela confusão irritante que foi o maior elemento de todas as festas de Suez. A previdente penetração da polícia egípcia tinha esquecido que 300 convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em 20 lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade."


No dia da inauguração do canal, em 17 de novembro de 1869, Eça descreve o que viu: “#PortSaid, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. […] Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos princípes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a ‘Aigle’, com a imperatriz, o ‘Mamoudeb’ com o quediva (1), e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José, até ao caide árabe Abd el-Kader. O azul da baía era riscado em todos os sentidos pelos escaleres, a remos, a vapor, à vela; almirantes com os seus pavilhões, oficialidades todas resplandecentes de uniformes, gordos funcionários turcos afadigados e apoplécticos, viajantes com os chapéus cobertos de véus e couffiés, cruzavam-se ruidosamente por entre os grandes navios ancorados; as barcas decrépitas dos Árabes, apinhadas de turbantes, abriam as suas largas velas riscadas de azul. Sobre tudo isto o céu do Egipto, de uma cor, de uma profundidade infinita. À noite a cidade iluminava-se, enchia-se de músicas e festas populares. As esquadras tinham as suas armações e cordagens cobertas de fios de luz. Durante toda a noite os fogos de artifício, numa grande linha de terra, faziam, sobre o céu escuro, um grande bordado luminoso."


Na segunda e terceira crónica, Eça de Queiroz relata a viagem canal adentro, a bordo do ‘Fayoum’, centrando a reportagem na descrição da cidade de #Ismailia: "Ao outro dia pela manhã entrávamos, ao ruído das salvas, no lago Timsah. No fundo víamos a cidade de Ismailia. Era ali o centro das festas. Ismailia é a capital do canal. É um porto admirável, inacessível às tempestades, À simples agitação da água; não porto de passagem como Port Said ou Suez, mas perfeita estação de descanso para a navegação do Oriente. Comunica com o Egipto pelo caminho de ferro e pelo canal de água doce; tem praças, largos, ruas de futura capital. Não é cidade rude e trabalhadora como Port Said, cheia de oficinas e de operários. É uma cidade cheia de chalets, de esboços de palácios, de passeios arborizados, de cais largamente construídos. Tem já os refinamentos civilizados de uma capital; tem mesmo já uns pequenos ares de corrupção; as almeias exiladas do Cairo, refugiadas em Esneh no Alto Egipto, têm-se vindo aproximando de Ismailia. Tudo aquilo assenta, é verdade, sobre a areia, e para os lados do deserto vive uma população árabe em toda a sua pitoresca miséria. Mas a sua colocação é excelente: confinada entre um deserto e um lago, tem para se abastecer o baixo vale do Nilo, a seis horas de distância, e para comunicar com o mundo a navegação do canal. Pela sua posição é um porto forçado, e o melhor do Oriente. Todos os paxás do Egipto têm tido, como os antigos tiranos, o desejo de ligar a sua memória à edificação de uma cidade: Mehemet-Ali, Said-Paxá, Abas-Paxá, todos. A cidade que este último original fundou, Abasíade, ainda hoje está acabando de se desmoronar perto do Cairo, no caminho da antiga Heliópolis, numa vasta planície deserta. Ismail-Paxá será talvez mais feliz, e Ismailia poderá vir a ser a capital europeia do velho Egipto, como Alexandria é a sua capital comercial, e o Cairo a sua capital histórica."


Na quarta e última reportagem, publicada no dia 21 de janeiro, depois de sair com sucesso da corrente calma do Mediterrâneo para a corrente contrária do mar Vermelho, o ‘Fayoum’ aportou a Suez que Eça descreve como uma “cidade escura, miserável, decrépita; é o começo de novas regiões; e já quase a Ásia e a Índia” [...] mas é ali que civilização europeia começa a representar-se [...] por cafés-cantantes e por gourgandines de Marselha.


Eça conclui a série de reportagens contando que "Em Suez, separou-se aquela caravana de convidados que havia seis dias saíra de Alexandria. Uns ficaram em Suez, outros foram para o Cairo. Nós fomos para as costas da Arábia, para os lados do deserto do Sinai ver o oásis de Moisés." Dessa peregrinação pelo Egipto, retirou Eça as referências que haveria de utilizar no romance A Relíquia e em alguns contos. Os apontamentos que foi registando nessa viagem foram postumamente publicados no livro O Egito. Notas de Viagem.



Fonte:

Eça de Queirós, «De Port-Said a Suez», Diário de Notícias, 6.º Ano, n.os 1507-1510, 18 a 21 de Janeiro de 1870.

(consultado aqui: http://www.arqnet.pt/portal/pessoais/eca_suez.html)


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