• João Ventura

De malas aviadas

Hoje, ao passar os olhos pela prateleira mediterrânica da minha biblioteca, abriram-se-me as malas de viagem de Paul Bowles. Numa delas, encontrei a sua autobiografia Memórias de um nómada, onde, por instantes, o vi escrevendo sofregamente, deixando cair no papel «without stopping» uma torrente de palavras: contos, novelas, traduções de amigos marroquinos, crónicas de viagens. Noutra mala, encontrei o seu mais célebre romance, Sob um céu que nos protege, onde escreve que a diferença entre o turista e viajante reside no tempo. E noutra ainda, encontrei Deixai a chuva cair, o romance sobre a nervosa Tânger, a cidade por onde Bowles errou durante grande parte da sua vida. Bowles que se fez desaparecido em Marrocos, correspondendo ao mito simpático do ocidental que rejeita o estatuto social da sua origem para se ocultar na distância libertadora do Norte de África. e noutra ainda,


De mala em mala, lembrei-me da "mala grande" de Manuel Teixeira Gomes, o diplomata e ex-presidente da República e, sobretudo, escritor de novelas, cartas e crónicas de viagem. O viajante vagaroso entre margens mediterrânicas, percorrendo cidades e portos onde mercadejou, amou mulheres múltiplas, visitou museus, leu e escreveu, como um dandy elegante. Também Teixeira Gomes, nas suas andanças mediterrânicas, aportou um dia em Tânger, seguramente com a sua «mala grande», a “Never Break”. E também ele, mais tarde, se deu como desaparecido em Bougie (Bejaia), Argélia, onde viveu esquecido no quarto número 13 do Hotel de Étoile - a sua «mala grande» transformada ali num sedentário guarda-roupa, mas a lembrar a sua anterior existência nómada. Uma vida sem fronteiras nem códigos a limitar o desejo e a imaginação criadora. Como uma gaivota atraída pelo brilho das paisagens do Sul, sem nada querer possuir a não ser um pequeno quarto num hotel, depois de ter tido todo o mundo no olhar.




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