• João Ventura

Em Pompeia, na véspera da erupção do Vesúvio

Atualizado: Mar 16

Na estação Central de #Nápoles, na Praça Garibaldi, apanho o comboio da linha Circumvesuviana em direcção a Sorrento e saio em Pompei Scavi-Villa Misteri. Entro pela Porta Nocera e eis-me em #Pompeia, no ano 79 DC.


Imagino-me um lusitano clandestino, espiando naquela cidade balnear do império romano como era a vida dos invasores da Ibéria. Junto à entrada do principal Anfiteatro, consulto o programa: “Vinte pares de gladiadores de Decimus Lucretius Satrius Valens, sacerdote vitalício de Nero filho de César Augusto, e dez pares de gladiadores de Decimus Lucretius Valens, seu filho, lutarão em Pompeia na próxima semana contra feras”.


Sigo pela Via Nocera até à Via dell’ Abbondanza, a principal rua da cidade, que liga o Anfiteatro ao Fórum. Cruzo-me com patrícios, senadores, edis, mercadores, almocreves, gladiadores e escravos num vai e vem constante, calçada abaixo calçada acima. De um lado e de outro da rua, lojas de artesãos com pequenos apartamentos no piso superior. Fontes públicas nos cruzamentos para abastecimento dos moradores. Tabernas, muitas. Na taberna do Sotericus, de pé, junto ao balcão, um grupo de almocreves come uma sopa de favas com pão e queijo. Na olaria, o oleiro Zozimo trabalha ânforas de barro para o vinho e potes para guardar o “garum” pompeiano, como aquele, de sabor acentuado, que Umbrici vende duas lojas adiante; numa fabriqueta de curtumes talham-se peles; desde a lavandaria de Stephanus emana um odor a roupa lavada. Numa parede, um grafitti político apela ao voto no padeiro: “Peço o seu voto para eleger Gaius Julius Polybius vereador. Ele vende um bom pão.”


No Fórum, visito os templos de Vénus, Apolo, Vespasiano, Júpiter, o mercado. E passo, depois, junto à Casa do Poeta Trágico, onde, num mosaico no chão, a representação de um cão com ar ameaçador e a inscrição “Cave canem” avisa que devo afastar-me dali. O que faço, até porque a manhã já vai longa e é hora de almoçar. Procuro por isso uma taberna para comer boa comida local. Evito algumas tabernas com ar pouco recomendávdel, até que, numa praça com vista para a montanha verdejante densamente arborizada e entremeada com encantadores vinhedos, refrescada àquela hora pela aprazível aragem que sopra desde o Golfo de Nápoles, dou com uma apetecível “caupona”: balcão de alveanaria com grandes potes embutidos, donde emanam aromas de comida que atraem os muitos clientes que àquela hora por ali se juntavam em popular convivium de almoço rápido. Profusamente decorado com belíssimos frescos de cores tão vivas que parecem tridimensionais, representando as vitualhas do cardápio: sopas, carnes de porco, de cabra, de galinha e de pato. Queijo, caracóis, bebidas quentes e vinho aromatizado com favas. Embora não tenha comido como no banquete Trimalción, que Petrónio descreve no Satiricon, o livro que levei comigo para iludir os romanos sobre a minha identidade, por poucos sestércios recuperei energias para caminhar até à Villa dos Mistérios para ver os magníficos frescos, e depois, voltar a caminhar para até aos dois Teatros e informar-me sobre o programa dramático da soirée.


Ao entardecer, vejo um fumo suspeito a subir desde o cume da montanha, e desisto da programada visita ao Lupanário, cujas cenas mais escabrosas haveria de ver, prazerosamente, no Museu Arquelógico de Nápoles, e apresso-me a apanhar o comboio de regresso a Nápoles.


Noite adentro, desde o terraço do hotel com vista para a baía, assisto consternado à terrível explosão da montanha expelindo uma coluna de gás, magma e detritos que escurecem o céu, provocando uma letal chuva de cinzas, ao mesmo tempo que o solo é sacudido com tremores violentos e uma nuvem gigantesca de gases venenosos vai cobrindo a cidade, envolvendo-a num abraço mortal.


...


Regressei a Pompeia, mil novecentos e quarenta e dois anos depois, em 2017. Pude, então, verificar que apesar do grau apocalítico de destruição da cidade naquela noite e dois dias seguintes, como nenhum outro sítio arqueológico no mundo, as ruínas de Pompéia fornecem um retrato vivo que possibilita conhecer o quotidiano de uma cidade romana no primeiro século DC. Tal como naquele dia de 79 DC, voltei a caminhar no meio da chusma humana, agora composta por turistas, pela Via dell´Abbondanza, ao longo da calçada mais alta do que o nível da rua.


E desta vez, melhor do que na primeira visita, porque agora ali todas as casas estavam de portas e janelas abertas, como um mirone pompeiano flanqueei o seu limiar e pude ver as cozinhas à mostra, como que abandonadas minutos antes da tragédia, com panelas no fogão, pão petrificado no forno, jarrões encostados às paredes. Salas decoradas com esplêndidas estátuas de gesso, com magníficas pinturas nas paredes e em mosaicos, onde os ricos se banqueteavam confortavelmente, usando copos e recipientes de prata de surpreendente requinte. Tranquilos jardins interiores cercados por colunas e adornados com aprazíveis fontes onde já não corre água. E não falhei a visita ao Lupanário, onde entrei como um mirone de cenas eróticas alheias, explicitamente representadas em frescos à entrada dos quartos.


Só não revi, porque o achado apenas foi revelado há pouco mais de duas semanas pelas mais recentes escavações arqueológicas , a mesma caupona de "fast-food" e "take-away" onde almocei há quase dois mil anos anos, e que, segundo o director do Parque Arqueológico de Pompeia, Massimo Osanna, foi a primeira vez que um restaurante com bebidas quentes, conhecido como termopólio, foi encontrado intacto, com o balcão decorado com frescos de cores vivas, representando os animais que faziam parte dos ingredientes da comida servida, como uma galinha e dois patos pendurados de cabeça para baixo, e restos de comida em pratos, permitindo saber o que os clientes estavam a comer no dia da erupção do Vesúvio, o que, para mim, que lá almocei nesse dia, não foi novidade.



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