• João Ventura

Fazendo de conta que estou em Nova Iorque

Atualizado: Fev 21


Esta tarde, recolhido em casa como viajante sedentário por causa da pandemia, fazendo zapping no cartaz de estreias da Netflix neste início de ano, dei com a série documental “Faz de Conta que Nova Iorque É uma Cidade", em que #MartinScorsese dá forma cinematográfica às hilariantes e ácidas tiradas da ensaísta #FranLebowitz sobre pessoas e coisas novaiorquinas e sobre o verso e o reverso de #NovaIorque.


Pus a rodar o primeiro episódio e fiz de conta que estava em Nova Iorque, deixando-me guiar por esta mulher de feições e jeito masculinos, ar de bruxa, que se me foi revelando de uma inteligência, agilidade mental e um sentido de humor desbordantes, corrosivamente inimiga do politicamente correcto, ora caminhando pelas suas ruas e avenidas escutando os seus comentários imprevistos ora em divertidas conversas com Scorsese, também ele um retratista de Nova Iorque, como no filme “Taxi Driver”. E quando dei por mim, tinha calcorreado - sem máscara, pois a série foi gravada antes da pandemia - os 7 episódios com a duração de cerca de 30 minutos cada, em que Lebowitz me contou histórias desde o dia em que chegou à cidade em 1969, aos 19 anos, vinda de New Jersey, com apenas duzentos dólares no bolso dados pelo pai e como teve de se atirar a alguns trabalhos, como empregada de limpeza, taxista, etc., antes de se afirmar como crítica literária e de cinema e, depois, ensaísta.


Scorsese segue-a pela cidade - e eu vou seguindo ambos -, filmando e entrevistando em teatros e palcos, deambulando pelas ruas, visitando lugares iconográficos, oferendo-lhe uma singular maqueta da cidade que ela vai preenchendo com o seu humor simultaneamente, gracioso e contundente, falando do divino e do profano, dos táxis e do metro de Nova Iorque, do que se respira, se ouve e faz nas ruas, dos políticos, dos verdadeiros artistas e dos artistas da moda, da gente anónima, de afectos e de medos.


Depois de há poucos dias ter visto nas televisões a turba de bárbaros invadindo o Capitólio para vergonha e perigo da democracia na América, esta série é um bálsamo que me faz acreditar numa América melhor a partir do próximo dia 20 em Joe Biden tomará posse como Presidente e Trump será atirado para o caixote do lixo da História. E alimenta-me o desejo de voltar a Nova Iorque para percorrer a pé um mapa que alonga, ao longo de Manhattan e que se estende para o outro lado do East River para Queens, e Brooklyn.

Façam, então, como eu e aproveitem o fim de semana para fazer de conta que estão em Nova Iorque, acompanhando Fran Lebowitz e Martin Scorsese a partir daqui: https://youtu.be/MClMxqD-HNA. Se forem já, talvez me encontrem sentado ao balcão do White Horse, em Greenwich Village, com #DylanThomas, ambos de copo de whisky na mão escutando #JohnCale (ex-Velvet Underground) a quem o poeta galês emprestou o seu poema: “Do not go gentle into that good night”/ “Não entres docilmente nessa noite mansa” para nos avisar, premonitoriamente, que não nos devemos deixar apanhar pela “escuridão que avança” nestes tempos de pandemia e ódio, mas antes "grita[rmos] contra a luz que está morrendo”.


(ler poema na versão original e na tradução aqui: https://revistacaliban.net/n%C3%A3o-entres-docilmente-nesta-noite-mansa-e6bc0184cf42)


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