• João Ventura

Haja Belo Horizonte

Atualizado: Jan 1

Não, ainda não é o jantar de “passagem do ano” - que será a dois, mais a Violeta -, mas o último almoço do ano que dedico a todos os amigos de #BeloHorizonte, e em particular à Virgínia Valadares, que durante as minhas, e da Graça, estadas na capital mineira, no trajecto entre o bairro da Floresta onde morava, nos fazia atravessar o Viaduto Santa Tereza - aquele mesmo onde, no final dos anos 1920, Carlos Drummond de Andrade, aos 27 anos, escalou um dos arcos, e que foi criado para ligar o bairro da Floresta, onde morava o poeta, ao Centro, cumprindo, profeticamente, os desígnios da letra do compositor Rômulo Paes: “Minha vida é esta: subir Bahia e descer Floresta”.


Almoço, portanto, inspirado no tira-gosto que ela me deu a conhecer no Bar da Lora, no Mercado Central de Belo Horizonte, onde o cardápio caprichado pela Lora, Eliza Fonseca, para além do famoso fígado com jiló, me desafiou com o filet acebolado na chapa com mandioca e carne de panela com molho de cerveja preta.


Quando, levados pela Virgínia, fomos ao mercado - que tem saborosas referências no romance O Mundo Acabou, de Alberto Villas e no poema de Ricardo Aleixo Cine-Olho, onde uma criança corre como “um ponto riscado a laser na noite de rua cheia/ali para os lados do Mercado”, - nos muitos bares dispersos pelos corredores, espremidas e em pé, centenas de belo-horizontinos bebiam cerveja batendo o papo. Instados pela nossa amiga, comemos o famoso fígado com jiló da Lora, de pé ao balcão, acompanhado por uma cervejinha Brahma bem fresquinha. E hoje, porque os nossos amigos belo-horizontinos merecem o melhor, e sem sairmos da nossa mesa caseira, fomos para “Fora daqui” até BH, levados pelo famoso tira-gosto da Lora que preparei com jiló comprado no Mercado de Portimão, cebola, pimentos vários e salsa picadinha. E como por cá não há Brahma, e o tempo não está para frescuras, fizemos acompanhar o prato com um tinto alentejano da Herdade do Sabroso. E para matar saudades de Minas Gerais, no final, erguemos os nossos copos com um Contra Veneno, a cachaça mineira produzida pela família Valadares, lá em Comercinho, bem interior de Minas, saudando os nossos amigos, com votos de um Bom Ano Novo.


Como nota gastro-viageira, registo que o fígado com jiló não é exclusividade da Lora, pois quase todos os bares do Mercado Central oferecem o prato nos seus cardápios – ou, pelo menos, menos utilizam o jiló noutras receitas. O Casa Cheia, o melhor restaurante que ali existe - contaram-me - tem um prato chamado Tradição do Mercado, que leva fígado e pernil grelhados na chapa com jiló acebolado. O Restaurante do Jorge Americano que serve um prato que leva carne de panela, arroz, feijão, angu e, claro, jiló, e outros como o Bar do Pelé e o Fortaleza também servem a tradicional porção de jiló.


Porque o que me levou por três vezes para fora daqui até Belo Horizonte, não foi o fígado com jiló do bar da Lora, mas as amizades e a poesia, lembro-me de, naquela tarde, já de papo cheio de tira-gostos e bate-papos, ter passado bem ao lado do Palácio das Artes, onde à noitinha, numa Terça Poética, eu haveria de recitar a poesia de António Ramos Rosa, acompanhado ao piano pelo Gilberto Mauro. E, depois, ter seguido pelo Parque Municipal, um dos cenários do romance Os Novos (1971), de Luiz Vilela, prosador que frequentava o local em busca de inspiração. Virei, mais adiante, à esquerda, na Rua da Bahia, que, nas palavras do poeta Paulinho Assunção, “inventou Belo Horizonte”. Famosa rua que concentrou os bares predilectos de jornalistas e escritores e as redações de jornais, num dos quais trabalhou Rubem Braga, que, ironizando sobre o carácter provinciano da cidade, chamou-a de “Belorizontem” numa crónica:: “Haja cidade, disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol”. “E houve então a cidade”, como viu Paulinho Assunção e também eu a vi naquela tarde, ao avistar o Edifício Maletta, ali onde Rua Bahia se junta à Avenida Augusto de Lima. E, depois, percorrendo as suas galerias, com livrarias, sebos, bares e botecos, barbearias, lojas, escritórios.


Haja Belo Horizonte e Bem Hajam, vocês, meus, nossos amigos belo-horizontinos: Virgínia, Carol, Alberto, André, Makely, Gilberto, Glades, Leo, Saul..., e juntem-se à nossa mesa e saboreiem o fígado com jiló à minha maneira! Bom Ano 2020 para todos"


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