• João Ventura

Viagem de longo curso com o capitão Júlio Verne

Atualizado: Fev 8

Lembro-me de um dia, na antiga biblioteca municipal, ter pegado num livro que estava esquecido sobre uma mesa e começado a lê-lo. Era a Viagem ao Centro da Terra, de #JúlioVerne. À medida que ia virando as páginas e empreendia a viagem na sua geografia de papel era como se, também eu, por estranho sortilégio da leitura, me tivesse juntado ao professor e geólogo Otto Lindenbrock, ao seu sobrinho Axel e a Hans, o atlético guia islandês, e caminhasse através das ocas entranhas e do mar interior do centro da terra. Tão embriagado ia na voluptuosidade da leitura que não dei pelo passar do tempo até ao fecho da biblioteca, e quando quis levar emprestado o livro já não pude fazê-lo, porque não tinha cartão de leitor. No dia seguinte, mal saí da escola, ansioso, receando que alguém tivesse, entretanto, levado o livro, fui à biblioteca. Ainda lá estava à minha espera, agora dentro do armário com portinholas de vidro que guardava os livros para rapazinhos.


Pedi à bibliotecária que me deixasse levá-lo emprestado. E já em casa, prossegui na expedição. Pude, então, viver com os meus companheiros de papel os inarráveis perigos e fascínios da aventura que me levara ao outro lado do mundo, numa nuvem de cinzas e gazes tóxicos, expelidos pela cratera incandescente do Stromboli. Nas dias e semanas seguintes e, durante as férias desse distante Verão de infância extrema, viajei à volta do mundo com Phileas Fogg, acompanhei o périplo dos filhos do capitão Grant em busca do seu pai, atravessei desertos australianos e paisagens geladas da Patagónia. Caminhei na lua. Desci ao fundo dos oceanos. E até hoje, não mais deixei de viajar em viagens de papel através dos labirintos embebidos na tinta dos livros, o que tenho feito, amiúde, nestes tempos de confinamento caseiro, em que as viagens nómadas nos estão vedadas, e as únicas que nos são permitidas são aquelas que empreendemos em geografias de papel.


Escreve Verne que "cresceu no meio do movimento marítimo de uma grande cidade comercial, ponto de partida e de chegada de numerosa viagens de longo curso." É neste contexto, próximo dos cais da ilha de Feydeau, Nantes, que nasce Júlio Verne, em 8 de fevereiro de 1828. Filho mais velho numa famille com cinco crianças, em breve deixa-se fascinar pelo vai e vem de navios que observa com binócolos desde a janela do seu quarto. Muitos anos depois, evocará as escunas, os bricks e os grandes veleiros transatlanticos que aportavam aos cais vindos dos confins do mundo; e desde então, apenas terá um desejo: "Cruzar a prancha trémula que ligava [os navios] aos cais e pisar a ponte do capitão."


Júlio Verne haveria de buscar inspiração nas viagens que fez em Inglaterra, em 1859, e na Escandinávia dois anos depois. E naquela viagem mais longa que fez, em 1867, na companhia do seu irmão Paul, atravessando o Atlântico rumo aos Estado-Unidos, a bordo do gigantesco navio a vapor Great-Eastern, e que inspirou o seu romance Uma cidade flutuante. Amante do mar, Verne adquiriu três navios, nos quais navegou em cabotagem entre la França, Inglaterra, Dinamarca e Países Baixos; navegou ainda pelo Mediterrâneo e ao largo da Irlanda. Mas as suas maiores viagens, essas viveu-as através das cartografias de papel que estendia sobre a sua mesa de trabalho, suportes privilegiados das suas deambulações pelo planeta, umas vezes como geógrafo, outras como vulcanólogo, outras como astrónomo e outras como climatólogo. E em todas como um intrépido aventureiro e escritor de livros de viagens. "Aquilo que, antes de tudo, eu queria ser, era ser escritor." E foi-o, sem dúvida, explorando o mundo mais com o sua imaginação do que com uma bússola.


Hoje, desafiado pela lembrança da minha longínqua viagem com Júlio Verne (Nantes, 8 de fevereiro de 1828 - Amiens, 24 de março de 1905), cujo aniversário de nascimento se assinala amanhã, sugiro-vos que, sem saírem de vossa casa, empreendam uma viagem virtual a bordo do vosso telemóvel, entrando no videojogo “80 Days” (Apps Google Play), criado pela Inkle a partir do célebre romance A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, e visitem, uma a uma, as 150 cidades da cartografia do jogo, seguindo o itinerário de Willy Fogg, e vivendo a experiência virtual de alguns dos episódios dos livros de Verne, medindo as distâncias, descrevendo mares, continentes, meteorologias, hábitos e peculiaridades como intrépidos viajantes virtuais.


Ilustração: Guillermo Flores Orbeh

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