• João Ventura

O mundo de ontem

Fez ontem 72 anos que, num quarto de uma casa situada na rua Gonçalves Dias, em Petropólis, Brasil, #StefanZweig (1881- 22 fevereiro de 1942) foi encontrado morto na companhia de sua mulher Lotte Altman. Ela recostada sobre ele, as mãos entrelaçadas. Sobre a mesa de cabeceira, um trevo de quatro folhas, um frasco com restos de veneno e um poema de Camões. Zweig, para quem “as fronteiras e os passaportes seriam um dia algo do passado”, chegara ao Brasil uns meses antes fugido ao nazismo. De nada lhe serviu ter cruzado o Atlântico, pois os seus fantasmas foram no seu encalço e apanharam-no naquela noite de 21 para 22 de fevereiro de 1942.


Se a guerra de 1914 já tinha sido um duro golpe para seu ideal de uma Europa supra nacional, a ascensão de Hitler, a Alemanha do Anschluss, a nazificação da Áustria e a perseguição dos judeus foi o golpe final que traçou o destino que o levaria à última estação da sua viagem no número 34 da rua Gonçalves Dias, em Petrópolis.


Ensaísta, biógrafo, poeta, novelista, dramaturgo, tradutor, conferencista, libretista de ópera e intelectual de primeira ordem, Stefan Zweig, austríaco de origem judaica, foi, sobretudo, uma alma sensível. Da sua extensa obra, destacam-se as novelas Amok (1922) e Confusão de Sentimentos (1927), O Mendel dos Livros (1929), a biografia Magalhães, o Homem e o seu Feito (1937), o ensaio Brasil, País do Futuro (1941) e a autobiografia O Mundo de Ontem (1942). A Novela de Xadrez foi a sua obra derradeira, concluída pouco antes do seu suicídio, a 22 de fevereiro de 1942.


Stefan Zweig foi um intrépido viajante para quem o mundo era pequeno. Filho de um rico industrial têxtil judeu e de uma mãe oriunda de uma família de banqueiros italianos, recebeu uma requintada formação cultural, enriquecida com viagens através da Europa, primeiro com os seus pais e, mais tarde, por sua conta, através da China, Índia e Japão (entre 1908 e1909), América (1911) e de novo pela Europa, a cuja desagregação assistiu durante a Primeira Guerra Mundial, que foi o princípio do fim do seu mundo de ontem.


“Portos e estações, neles está a minha paixão”, confessa aos 45 anos. E crítica o turismo de massas: “viajar em massa, viajar sob contrato, é fazer-se viajar”; “já não há viajantes”, argumenta, “apenas viajados” […] sem necessidade de fazer contas, de planear, de ler livros, de encontrar alojamento…”. Um sacrilégio para Zweig que, quando a sua “mala bocejava” num canto da casa desafiando-o a viajar, planificava os seus itinerários e destinos em função das estações do ano e do clima. (in Stefan Zweig, De viaje, Sequitur).


A sua peregrinação pelo mundo começa, tinha ele na altura 21 anos, em 1902, em Ostende, “a mais extensa e mais elegante das praias da Bélgica”, e termina em Londres, em 1940, onde se tinha refugiado em 1934, depois de ter visto os seus livros serem queimados pelos nazis.


Assistiu, com sentimentos distintos, ao início das duas guerras. Em 1914, em Viena, a declaração motivou “uma euforia, um êxtase. Só conhecíamos a guerra através dos livros, nunca a havíamos considerado possível numa época civilizada”. Os cafés ficavam abertos até altas horas da noite repletos de oradores “cada um, um estratega, um estadista, um profeta”. Mas em 1940, em Inglaterra, já não houve euforia, porque já se sabia que uma guerra mundial era “uma fatalidade” que “consome quantidades industriais de pessoas e dinheiro”.


Meses depois, Zweig, para quem “as fronteiras e os passaportes seriam um dia algo do passado”, munido de passaporte e vistos para fugir da guerra, cruzou o Atlântico rumo ao Brasil. Parou em Petrópopis, a última estação de uma fuga sem fim. Ou de uma fuga ao encontro do seu fim. Uma fuga do Mundo de Ontem – o mundo desaparecido de Viena e da Europa anterior a 1914, que ele retrata com nostalgia no seu livro de memórias escrito no exílio, expressando o desencanto face ao esboroar do ideal de confraternização europeia, que incansavelmente acarinhou, e que a ascensão do nazismo veio destruir.



98 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo