• João Ventura

Odisseia sem retorno

Atualizado: Fev 21

"Nenhuma viagem é demasiado longa e perigosa, sobretudo se traz de volta a casa. Mas existem ainda casas onde voltar, alguma vez existiram?", pergunta Salvatore Cippico em Às Cegas, de #ClaudioMagris. Um mar de palavras em cujas águas escuras se misturam matéria ficcional, documental, autobiográfica, ensaística, histórica e epistolar através de uma voz confessional que navega à deriva entre a epopeia e o delírio, entre o mito e a realidade, para depois da funesta travessia regressar, não a casa como Jasão, mas a um manicómio, sem o tosão de ouro cuja busca foi a razão da sua odisseia.


Claudio Magris trabalha neste romance um motivo recorrente na sua obra: o do indivíduo à deriva, órfão da ideologia, já sem figura de proa que o guie no nevoeiro que se adensa sobre o mundo, e que, num derradeiro acto de esperança, se lança para diante, às cegas, avançando e perdendo-se continuamente num "delírio de muitos" - como chamaria Robert Musil -, ora naufragando em travessias marítimas ora no naufrágio colectivo das utopias.


A pergunta que Salvatore Cippico faz a si próprio, e que também nos interpela, é se ele, atravessando continentes e séculos, poderá regressar a casa, a Ítaca, confirmando o sentido da sua existência ou se será forçado a ir sempre adiante e sempre mais longe avançando e perdendo-se continuamente, num "delírio de muitos", nas ilusões em que fundou, e afundou, a sua vida, descobrindo com assombro a falta de sentido das coisas e do mundo. Odisseia de desilusão, e sem retorno, porque esta é uma viagem onde o indivíduo viaja às cegas no turbilhão do mundo, e quando pretende regressar, o mundo inteiro já se converteu num lugar estrangeiro, num lugar para onde o desejo de regresso perdeu o sentido e, muito menos, porque a própria casa em que habitava a utopia também já não existe.


Ao contrário da #Odisseia de #Homero onde Ulisses regressa a casa com a sua identidade confirmada ou do #Ulisses de #James Joyce onde Leopold Bloom também regressa a casa numa viagem circular elíptica, esta é uma odisseia que expressa a impossibilidade de encontrar um significado para a viagem, a errância às cegas que conduz ao naufrágio da existência daqueles argonautas das causas sociais que, depois de terem circum-navegado as utopias, empreendem a impossível viagem de regresso e, ao contrário de Jasão, sem o tosão de ouro, roubado entretanto por aqueles que ficaram em terra.


Odisseia sem retorno a Ítaca do revolucionário Salvatore Cippico que num hospital psiquiátrico recorda a sua vida, confundindo-a com as de vários aventureiros, uns reais, como Jorgen Jorgensen (1780-1841), que se autoproclamou rei da Islândia, outros míticos, como Jasão, das Argonáuticas, de Apolônio de Rhodes, entre outros que como ele se lançaram para diante avançando e perdendo-se continuamente, desagregando-se num "delírio de muitos" como O homem sem qualidades de #RobertMusil.



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