• João Ventura

No avião com Emmanuel Bove

A duração das minhas viagens de avião mede-se pelo número de páginas do livro que levo para ler a viagem. Umas vezes, uma longa viagem nocturna de ida e volta pode durar as 609 páginas de Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño, que me levaram desde Lisboa via Zurique até Santiago do Chile e volta, descontando os «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que [cruzam] Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Outras vezes, apenas as 172 páginas da edição de bolso de Mes amis, de Emmanuel Bove, que dura a viagem entre Lisboa e Paris e volta, sem contar com o sono matinal, em ambos os trajectos, sobre os Pirinéus, interrompido pelas hospedeiras da Aigle Azur a perguntarem-me se quero café ou chá.


Fui a Paris numa viagem de 172 páginas, levando comigo Mes amis que Emmanuel Bove (1898-1945) escreveu em 1924, antecipando as errâncias por uma cidade que já não existe, embora a deambulação solitária do protagonista aconteça num mapa que me é sempre familiar: «J´aime errer au bord de la Seine. Les docks, les bassins, les écluses me font songer à quelque port lointain où je voudrais habiter». Também eu, em Paris, gosto de errar ao longo dos cais do Sena e do canal S. Martin, e para lá me levou aquele voo de 172 páginas. Fui ao encontro de amigos, ao contrário do que sucede com Victor Bâton, o alter-ego de Bove que, igual a um vagabundo solitário, passeia pelas ruas cinzentas de Paris com uma obsessão pela amizade que vai falhando como se tal desejo lhe fosse para sempre vedado: «La solitude me pèse. J´aimerais à avoir un ami, un véritable ami, ou bien une maîtresse à qui je confierais mes peines».


E à medida que o avião avançava, este Bove crepuscular, passeante sem escapatória por ruelas e becos parisienses - que eu ia lendo pela primeira vez -, lembrava-me o passeante Robert Walser, só que Bove mais solitário que aquele, porque, ao contrário do escritor suíço que aos domingos dava longas caminhadas pelos arredores do sanatório de Herisau na companhia do seu amigo Carl Seeling, falhou sempre a sua busca obsessiva de amizade.


Bove, o Walser de Paris, portanto, sem «point d´amis», perdido no meio da chusma humana dos boulevards. Emmanuel Bobovnikoff, Bove, o inventor da auto-ficção naturalista, descendo a rue Saint-Jacques desde o seu hotel no número 298, metendo depois pela rue Soufflot, para ser detido mais adiante pela polícia de Clemenceau. Bove, ocioso, sob a máscara de Bâton: «Un homme comme moi, qui ne travaille pas, que ne veut pas travailler, sera toujours détesté. J´étais dans cette maison d´ouvrier, le fou, qu´au fond, tous auraient voulu être. J´étais celui qui se privait de viande, de cinéma, de laine, pour être libre. J´étais celui qui, sans le savoir, rappelait chaque jour aux gens leur condition misérable. On ne m´a pas pardonné d´être libre et de ne point redouter la misère». Bove, pelos passos de Bâton, errando livremente pela rue de Seine, pela rue Gît le Coeur, que levam ao parapeito do Sena.


Ou Bove, «o Walser da rua Vaneau», segundo Vila-Matas, talvez por ele ali ter vivido - teria? - durante o ano de 1928, no rés-de-chão do mesmo prédio onde vivia também André Gide. Sempre la bonne rumeur, diria Bove, da rua Vaneau. E por isso, enquanto fui ouvindo bater o relógio de páginas que escolhi para medir o tempo daquele voo, decidi que, uma vez em Paris, iria à rua Vaneau, onde, para além de Gide e Bove, viveram ainda Marx e Saint- Éxupéry e se alojam, hoje, no Hotel de Suède, os escritores do editor Christian Bourgois, logo Lobo Antunes incluído, nas suas passagens por Paris, o que faz dessa rua um estranho tecido de destinos, a cujo significado só poderá aceder quem «viva já nas costuras do ruído mundano».



61 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo