• João Ventura

No bairro de Elena Ferrante

Atualizado: Fev 21

Estou nos subúrbios de #Nápoles, a caminho do bairro Rione Luzzatti, em Gianturco. Vou sem guia turístico nem mapa, recriando a partir das imagens da primeira temporada da saga Duas Amigas que a plataforma streaming HBO adaptou a partir da tetralogia homónima de #ElenaFerrante (o nome que assina os romances e que mais do que um pseudónimo, é a máscara que esconde a identidade da autora) os cenários reais da ficção literária do quarteto de romances napolitanos, que inclui A Amiga Genial (2011), História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014), publicados em Portugal pela Relógio d’Água.


Os quatro livros (e a série) retratam a vida de Elena Greco e Raffaella Cerullo, Lenú e Lila como eram apelidadas, duas rapariguinhas nascidas nos anos 50 do século passado

em Rione Luzzatti, um bairro lúgubre na periferia de Nápoles, marcado pela pobreza, machismo, violência doméstica e de rua, e pela Camorra, que se tornam amigas inseparáveis e rivais sem tréguas. Elena, cautelosa e ponderada, conseguirá escapar do bairro graças à sua perseverança nos estudos, tornando-se escritora em Turim e em Milão; Lila, “terrível e deslumbrante”, impulsiva e ousada, não conseguirá, porém, transpor definitivamente a fronteira marcada pela linha férrea que separa o bairro do mar, do porto e, mais além, do centro histórico de Nápoles, ficando prisioneira e mal-amada no bairro maldito, centro visível e invisível dos quatro romances, mesmo quando a acção se desenrola fora dele.


"Senti como se o bairro se tivesse alargado até abarcar toda Nápoles", escreve Elena. Mas Lina insistia em reduzi-lo ao seu pequeno mundo: "Eu descrevia-o como o centro de Nápoles e ela colocava no centro de tudo a casa de Gigliola, num dos edificios do bairro".


É esse “pequeno mundo” de Lila que observo agora no google streets. Imagino-me a caminhar desde a Estação Central pela rua Taddeo da Sessa, numa estrada paralela ao muro da linha férrea que se alonga à minha direita. De um lado, os edifícios modernos do Centro Direzionale; do outro lado, a linha férrea e os estaleiros do porto. Passam camiões castigando a estrada com o seu pesado rodado. À medida que avanço, o asfalto vai desaparecendo no meio de uma paisagem desolada. "A angústia, as ruínas, o luto de Nápoles", escreveu #CurzioMalaparte em A pele.


Em Rione Luzzatti, apercebo-me como naquele aglomerado de edifícios cinzentos de quatro andares com janelas estreitas embandeiradas com roupa a secar sol, habitado por “indistintos escombros humanos”, o mar que estava ali tão perto, a apenas oito quilómetros de distância, era para Elena e Lila uma “vaga recordação azulada”, tão longínqua naquele dia em que as duas amigas faltaram à escola, na tentativa “cruzar as fronteiras de bairro” para descobrir a sua presencia invisível”.


Vejo a igreja de Rione destacando-se entre os prédios baixos do bairro, em cuja vizinhança viveu a maestra Olivier que ajudou Elena a continuar os estudos. A praceta onde as crianças do bairro passavam os dias, transformada agora num recinto para jogar à bola. Os pátios fechados por grandes portões. A biblioteca onde Elena e Lila se enredavam na gramática de Latim, despertaram para a literatura e efabulavam o futuro. Só não vejo a oficina do sapateiro Cerullo, onde Lila desenhava sapatos, Nem o bar dos Solara, nem a salumeria Carruci… Mas o túnel por onde, nos livros (e na série), se entrava e saía do bairro, ainda lá está.


Transponho o túnel e sigo pela mesma estrada empoeirada percorrida por Elena e Lila quando faltaram à escola para “cruzar as fronteiras do bairro”, respondendo ao apelo do mar ali tão perto e tão longe. Adentro-me pela estrada mental da literatura que se abre luminosa à minha frente em direcção aos estaleiros do porto e à baía de Nápoles, comendo uma formidável sfogliatella que, por misterioso sortilégio literário, trouxe do bar dos Solara. Desligo-me do google maps e apanho um táxi que me levará até Port`Alba, na rua San Pietro a Majella, onde Elena me espera para juntos nos perdermos pelo centro histórico de Nápoles.



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