• João Ventura

O amor nos tempos da cólera

Atualizado: Mar 2

"De tanto [ter lido sobre #CartagenadasÍndias, Colômbia] […], identifiquei de imediato a praceta [Portal de los Coches ou de Los Escribanos ou de Los Dulces], onde [antes] estacionavam os carros de cavalos e carroças de carga puxadas por burros e, ao fundo, a galeria de arcadas onde o comércio popular se tornava mais denso e buliçoso." […] “Bastou-me dar um passo dentro da muralha para vê-la em toda a sua grandeza sob a luz malva das seis da tarde, e não pude reprimir o sentimento de ter voltado a nascer” (#GabrielGarcíaMárquez, Vivir para contá-la).


Atravessei a praça e acerquei-me das palenqueras, aquelas mulheres bonitas, descendentes de escravos, vestidas de arco-íris, que atrás de uma exótica banca de frutos caribenhos me desafiavam com um sorriso estampado nos seus olhos de uva. "Uma negra feliz com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, ofereceu-[me] um triângulo de ananás espetado na ponta de uma faca de cortador. [...] Peguei-[lhe], me[ti]-o inteiro na boca, sabo[reei]-o e estava a saboreá-lo com o olhar errante pela multidão" quando a vi chegar. (O amor no tempo da cólera, Gabriel García Marquéz)


Vinha abrindo caminho por entre a multidão com uma passada fluida. Segui-a sem me deixar ver, descobrindo os seus gestos quotidianos, a sua graça. […]. “Vi-a "submergi[r] na algaraviada quente dos engraxadores e dos vendedores de pássaros, dos alfarrabistas, dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos gritos por cima da confusão os sumos de coco e ananás para o rapaz, os de coco para os loucos e os de canela para a Micaela. Mas ela ficou indiferente ao troar, imediatamente cativada por um papeleiro, que estava a fazer demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com o aspecto do sangue, tintas com reflexos tristes para as mensagens fúnebres [nestes tempos de cólera], tintas fosforescentes para se ler às escuras, tintas invisíveis que se revelavam com o brilho do lume. Ela queria todas para brincar [comigo], para me assustar com o seu engenho, mas no fim de várias tentativas decidiu-se por um frasquinho de tinta de ouro. Depois foi ter com as doceiras sentadas por trás das enormes redomas e comprou seis doces de cada qualidade, apontando-os com o dedo através do vidro, porque não conseguia fazer-se ouvir no meio da gritaria: seis papos-de-anjo, seis de leite, seis de gergelim, seis de iúca, seis de chocolate, seis piononos, seis de goiaba, seis deste e daquele, seis de tudo...” (Gabriel García Márquez, "O amor nos tempos da cólera").


Foi, então, que me aproximei e tocando-lhe no ombro, segredei-lhe:


- “Este não é o lugar indicado para uma deusa coroada.”


Ela virou a cabeça, sorriu e deu-me a mão.


Transcorrida a hora malva, e porque era quase hora de jantar, passámos sob o arco da Torre do Relógio, onde Florentino Ariza e Fermina Daza nos esperavam para irmos celebrar o amor nos tempos da cólera, no restaurante preferido de Gabriel García Márquez, em Getsenami.


Sob o afago da brisa tropical que soprava desde o Caribe, deixámos para trás o Portal de los Dulces, as antigas bodegas coloniais do porto, as muralhas e as cúpulas das igrejas que àquela hora malva começavam a brilhar sob um céu cor de canela, e ladeando o molhe dos Pégasos, com a baía de las Ánimas ao nosso lado direito e os arranha-céus de Boca Grande cortando o horizonte no outro lado, encurtámos caminho pela rua do Arsenal.


No restaurante a Cocina de Pepina, deram-me honras de leitor de Gabo e aprendiz de pratos macondianos, e Dona Pepina deixou-me entrar na cozinha, onde, para surpreender Gabo que ali nos esperava, acrescentei ao labor culinário da cozinheira caribenha o meu próprio realismo mágico aos pratos com que, jantar adentro, saboreando uma alboronía em honra de Firmina, perdida de amores por Firmino Ariza. e por beringelas com banana, e uma divinal sopa caribenha de sabores cremosos e odores marítimos e frutíferos, celebrámos o amor nos tempos da cólera.


[Ver na subpágina de A vida breve deste site a fotonovela pessoal de uma estada amorosa em Cartagena das Índias]


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