• João Ventura

O passeante de Paris

Atualizado: Abr 28

Gosto de Paris e dos seus clichés. Gosto dos entardeceres sob o zinco da esplanada do Café de Flore, folheando um livro acabado de comprar, ali mesmo do outro lado da rua, na livraria La Hune. Gosto de caminhar à deriva por Germain-des Près, guiado pela intuição do passeante, e de ir, depois, pela Rue de Seine e cruzar o arco que dá para o Quai de Conti e para a Pont des Arts onde - quem sabe? - talvez sob "a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio possa entrever" a Maga da Rayuela do Cortazar, umas vezes "andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água". Gosto dos "bouquinistes" ao longo dos cais do Sena. Gosto da Île de Saint-Louis com as suas boutiques elegantes. Gosto de deambular pelo Marais até à Place de Vosges e, depois, tomar um chá na Rue Vieille du Temple. Gosto da Rue Mouffetard, "essa maravilhosa rua esteita com o seu mercado sempre coalhado de gente", cruzada por Hemingway a caminho do Café des Amateurs. Gosto do aroma forte dos queijos que assomam nas vitrines da velha "crémerie" da rue Saint Jacques. Gosto da livraria Arbre à Lettres, na Place Contrescarpe, onde vem desembocar a Rue Mouffetard. Gosto de errar pelas passages secretas, onde Walter Benjamin via Paris como a cidade dos espelhos. Gosto de me imaginar Le Paysan de Paris e como Aragon perder-me na sua cartografia, escutando a formidável ressonância das pequenas coisas que apenas se revelam ao passeante. Gosto de Paris, porque, como escreve Enrique Vila-Matas, Paris Nunca se Acaba.


Robert Doisneau, L´Accordeoniste de la rue Mouffetard (1951)

56 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo