• João Ventura

O uso do mundo

Atualizado: Fev 23

No Verão de 1953, #RobertBouvier um jovem de 24 ans, deixa Genève e a sua universidade, onde frequentava os cursos de sânscrito, de história medieval e, depois, de direito, e acompanhado pelo seu amigo Thierry Vernet, que documentará a expedição em desenhos e croquis, parte, estrada fora, a bordo do seu Fiat Topolino, rumando à Turquia, ao Irão, a Cabul, até à fronteira com a Índia. Os seis meses que durou a viagem através dos Balcans, Anatólia, Irão e Afeganistão darão a matéria para a escrita de L´Usage du Monde (editado em Portugal, com o título O Mundo: Modo de Usar, Tinta da China, Col. Viagens, dirigida por Carlos Vaz Marques) que apenas seria publicado dez anos mais tarde – e à conta do autor – antes de se tornar um livro de culto da literatura de viagens.


Cruzando fronteiras irreais, mapeando vagarosamente o caminho, umas vezes avançando e outras parando devido às muitas avarias do Fiat Topolino, misturam-se na galeria de personagens que vão encontrando, como se também eles pertencessem a cada um dos lugares que atravessam, vendo, para mais tarde contar, aquilo que outros viajantes não teriam visto: os músicos ciganos dos Balcans, os guardas fronteiriços adormecidos pelos vapores do samovar e do narguila, os orgulhosos caminhantes afegãs, os mendigos iranianos que declamam de cor a poesia de Hâfiz e de Nizhami falando de amor e de vinho, as avós arménias de Tabriz, os apátridas estrangeiros consumidos pela saudade…


Uma apologia da errância traduzida numa das mais cândidas e desprendidas narrativas de viagem, fiel à tradição da descoberta e do encantamento e, ao mesmo tempo, uma reflexão ética e moral sobre um modo de estar/”usar o mundo” em paragens desconhecidas no meio de gente com outras maneiras de ser e de estar no mundo”.


(Foto de Tierry Vernet: Azerbeijão, Primavera, 1954)


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