• João Ventura

Passeantes de dezembro

Atualizado: 26 de Dez de 2020

Herisau, dia de Natal de 1956. Entre faias e abetos, na ladeira que desce do Schochenberg, um homem jaz no chão confundindo-se com o deserto branco que o rodeia. A neve é o mais perfeito esconderijo. Depois de ter almoçado no sanatório, errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque lamentoso de um sino. A cabeça está apoiada sobre a raiz de um abeto que emerge da neve. Não há tristeza no seu rosto. Apenas a réstia de um olhar eternamente extasiado perante a neve pura, com o espanto de quem descobre, finalmente, o mais secreto dos desejos. Daqui a pouco, um grupo de crianças encontrará um corpo num bosque gelado e saberemos tratar-se de #Robert Walser, o «poeta mais escondido que alguma vez existiu», como escreveu #Elias Canetti. E que num nos dos seus romances, Os irmãos Tanner, pusera premonitoriamente na boca de um personagem uma elegia a Sebastião, o poeta encontrado morto na neve: «Com que nobreza escolheu a sua tumba! Jaz no meio de esplêndidos abetos verdes, cobertos pela neve. Não quero avisar ninguém. A natureza inclina-se a contemplar o seu morto, as estrelas cantam suavemente à volta da sua cabeça e as aves nocturnas grasnam: é a melhor música para alguém que não tem ouvido nem sensações».

No mesmo dia de Natal, em 1956, há sessenta e quatro anos, portanto, morria o avô de #W. G. Sebald - outro escritor passeante através de paisagens solitárias, que morreu como o seu avô e como Walser, também, num dia Dezembro de 2002 – que tinha saído de sua casa para dar um passeio pela neve e tombou sobre ela quase à mesma hora em que o outro passeante, Robert Walser, caía, também, fulminado, sobre a neve, numa paisagem de faias e abetos.


Neste Natal de 2020, recordo não os silêncios dos passeantes mortos em Dezembro, mas as palavras que nos legaram entre ruínas. E olhando a rua deserta desde a minha janela, retenho da leitura daqueles passeantes de Dezembro que partiram no mesmo ano em que eu cheguei, a sua esterilidade sentimental em relação às festividades natalícias.


Em Portimão não neva, por isso não haverá o perigo de me perder na neve neste dia de Natal. Tão pouco sou um passeante através de paisagens solitárias. Sou antes um passeante urbano que não se deixa bafejar pela secura do coração daqueles passeantes em relação ao Natal. Até porque, embora seja avesso a toda a retórica que transforma a época natalícia numa época do mais seco mercantilismo envolto em falsas roupagens de fraternidade e solidariedade, conforta-me a reunião da família, este ano mais reduzida por força da circunstâncias que todos conhecemos, a exposição da minha pequena colecção presépios do mundo, a estética do fogo da lareira, os sabores, os cheiros, o aflorar do passado trazido sempre pelos mais velhos. Por isso, neste Natal continuarei a criar com os amigos e a família uma realidade distinta a partir da realidade inquietante, empobrecida, envolta em papéis cintilantes que embrulhavam os presentes de Natal. Porque se ainda é possível um verdadeiro espírito de Natal, ele só poderá ser encontrado se formos capazes de ver uns aos outros apesar das máscaras com que disfarçamos o medo.


Aproveitar, então, o Natal, não para desaparecer na neve como o passeante solitário Walser, nem para nos isolarmos nestes tempos de desagregação e medo que nos rodeia, mas para, no meio de uma estética de ciprestes, pinheiros, zimbro e coloridas velas trémulas com cheiros que compoêm a paisagem doméstica destes dias, continuarmos a explorar, como passeantes de Dezembro, a pueril felicidade de quem redescobre nas coisas banais o prazer de estar vivo.



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