• João Ventura

Pela estrada fora

Atualizado: Mar 14

"Anos antes eu andara no mar com um tipo alto e seco de Louisiana, que se chamava Big Slim Hazard, William Holmes Hazard, que era vagabundo por escolha. Em criança, tinha visto um vagabundo pedir à mãe um bocado de torta, e ela dera-lho; e quando o vagabundo se afastou pela estrada fora, o rapazinho perguntou:

—Mãe, quem era ele?

—Era um vagabundo, filho.

—Mãe, quando for grande quero ser vagabundo.

—Não digas parvoíces.

Mas ele nunca esquecera aquele dia, e depois de crescer, após um curto período como jogador de futebol na equipa da universidade de Louisiana, tornou-se vagabundo."

(Pela Estrada Fora, Jack Kerouac)


Em julho de 1947, #JackKerouac atravessou sozinho os Estados Unidos, viajando de autocarro e à boleia, depois de ter sido expulso da Marinha durante a II Guerra Mundial devido ao seu comportamento esquizoide, e de ter trabalhado como marinheiro mercante, ferroviário e guarda-florestal. E em 1950, voltou à estrada, desta vez viajando de automóvel até à Cidade do México, levando como penduras Neal Cassady e outro amigo de Denver. Dessas viagens pelas Estradas 6 e 66 ou em comboios de mercadorias das linhas Missouri Pacific, Great Northern, Rock Island, que realizou com o propósito explícito de escrever sobre elas, nasceu On the Road (Pela Estrada Fora), um dos livros mais vendidos da literatura norte-americana contemporânea, bíblia da contracultura dos anos 60 e espécie de manifesto da geração beat, tal como a poesia de Ginsberg, Ferlinghetti e Corso. O motivo não foi turismo ou fuga, mas sim literatura.


"A minha primeira boleia foi um camião de dinamite, com uma bandeirola vermelha, que me levou cerca de trinta milhas para o interior do verde Illinois; o motorista indicou-me o lugar onde a Estrada 6 , em que seguíamos, se cruza com a Estrada 66,antes de ambas se lançarem para Oeste numa extensão incrível" (Pela Estrada Fora).


Nova Iorque, Chicago, Denver, São Francisco, Nova Orleões, San Joaquin Valley, México, eis a cartografia do livro que concentra as memórias da América na ressaca do pós-guerra e no limiar da Guerra-Fria. Uma viagem por estradas secundárias, com muitas paragens e encontros. Com vagabundos, bêbados em bares perdidos no meio de nada e conversas sem fim regadas a cerveja e fumadas a marijuana ao som do jazz de Nova Orleães, na companhia de trabalhadores da Califórnia mexicana. Esta era a América atravessada costa a costa que ressoa ainda num imaginário que fui construindo a partir da leitura do livro.


​Também eu, quando aos dezassete anos li Pela Estada Fora, após um período como jogador de futebol na equipa juvenil do Portimonense fiz-me vagabundo para fugir de um país de adolescência perdida, atravessando países artúricos ao longo da minha viagem iniciática. «Só pode ser o fim do mundo se avançarmos», já tinha lido em Rimbaud cujo apelo segui. Madrid, Paris, Copenhaga, Estocolmo. Uma errância europeia em vésperas de 74. Um único livro na mochila, precisamente o road book de Kerouac que lia enquanto esperava pelo próximo comboio sob o orvalho das manhãs frias, tendo como companheiros de papel Sal Paradise e Dean Moriarty com os quais vagabundeava através dos corredores das carruagens dos comboios. "Algures no caminho, sabia que haveria raparigas, visões, tudo; algures no caminho a pérola ser-me-ia dada" (Pela Estrada Fora).


​Assim viajei pela estrada fora com uma edição da Ulisseia na mochila, que ainda guardo, anotada a lápis. E embora depois tenha esquecido o livro, durante muito tempo o meu imaginário americano foi aquele que Sal me ofereceu. Os arranha-céus de Nova Iorque, o pôr do Sol vermelho atrás das montanhas, a imensidão do deserto, poços de petróleo na linha do horizonte, o vento embalando os campos de algodão, as águas barrentas do Mississippi, casas com jardins, beatas de cigarro corroendo o chão de estações de comboios, o «odor devasso de uma grande cidade», São Francisco brilhando como uma joia na escuridão da noite, jazz tocado às escondidas em bares de cidades suburbanas...


​«As únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que não bocejam, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir», escreve Kerouac no livro. Uma explicação para a viagem, para a boémia, para a marginalidade, para as drogas, para o desvario, para o desregramento dos sentidos que haveria de levar à escrita do livro em 1951 (e publicado em 1957), num ritmo alucinante alimentado a café e ao som do jazz improvisado, como se fosse um Proust «só que mais rápido», como ele gostava de dizer. O livro foi dactilografado num parágrafo único, sem pontuação num rolo de trinta e seis metros de comprimento que o próprio Kerouac manufacturou juntando 13 folhas de papel com três metros de comprimento cada uma, coladas com fita-cola e recortadas depois para que pudessem entrar na máquina. «Um único e magnífico parágrafo, de vários quarteirões, rodando, como a estrada em si», diria Allen Ginsberg.


​Depois do sucesso e das polémicas suscitadas pelo livro, Kerouac saiu da estrada, deambulando apenas pelos atalhos de uma América que perdera toda a inocência e donde, tal como os seus companheiros de estrada, também ele desertaria: «Perdoei a toda a gente, desisti, embebedei-me» - este o destino que ele próprio já adivinhava para si. Morreu em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, devido a uma hemorragia abdominal em consequência do alcoolismo, sem ter conhecido a resposta à pergunta feita no romance: «Para onde ides vós, América, no vosso automóvel a cintilar pela noite fora?».


E também nós, viajantes pela estrada fora, nunca conheceremos essa resposta, pois o torvelinho do mundo tudo parece arrastar num vórtice que enlouquece a própria história, e não já basta fazermo-nos à estrada em busca de um tempo artúrico.


Fotografia de Jack Kerouac, por Fred DeWitt

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