• João Ventura

Se numa noite um viajante

«As estações de comboios deixam-me entrever um mundo que não conheço. A atmosfera que as envolve é mais subtil. [...] Gosto de estações de comboios porque elas vivem dia e noite», confessa #EmmanuelBove em Les Amis, o romance que comecei a ler, não numa estação de comboios, porque já não se viaja de comboio para Paris, mas num aeroporto que pouco tem a ver com as estações de comboios que povoaram o mapa inter-rail da minha adolescência. Santa Apolónia, Atocha, Austerlitz... Tal como Bove, também eu gosto de estações de comboios para onde os meus passos sempre me levam quando vou nos passos de escritores por cidades cidades literárias.

Há uns anos viajei de avião para Leipzig onde devia apanhar um comboio para Weimar. Mas como cheguei à estação na curva da madrugada, e só havia comboios para dali a algumas horas, deixei-me ficar por ali naquela estação onde todos os comboios já tinham partido, mas onde, secretamente, ainda pairava no ar o cheiro do último comboio a carvão que dali havia partido há muitos anos. Esse o segredo mineral das estações de comboios que me lembram o pequeno mundo organizado de partidas e chegadas da minha infância, que misturava a mecânica das velhas locomotivas com a do diesel das novas automotoras, manobrando com um rumor metálico sob o olhar ocioso dos Boves que, entre passageiros apressados e grandes sacos de correio, erravam na pequena estação de província para onde me esgueirava depois da escola.


E lembram-me, ainda, como muitos anos depois encontraria a mesma estação de comboios rigorosamente vigiados da minha infância no romance de noventa páginas #BohumilHrabal, cuja acção se passa na Checoslováquia, no final da Segunda Guerra Mundial, e que repete o mesmo pequeno mundo de chefes-de-estação, factores, agulheiros, maquinistas, carregadores, cobradores de bilhetes e passageiros de segunda classe onde cresci. A mesma estação de comboios que voltaria a encontrar naquele romance de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante, onde, numa noite de chuva, um passageiro desembarca numa estação ferroviária que me deu «a impressão de recuar no tempo, de uma reocupação dos tempos e dos lugares perdidos, ou então um faiscar de luzes e de sons» que eu julgava perdidos na estação embaciada da minha infância onde já não há comboios a manobrar pelos carris brilhantes a perder de vista.


Por isso, como Bove, gosto da atmosfera subtil das estações ferroviárias, por onde deambulo numa espera sem fim por um breve encontro como no filme homónimo de David Lean que revi há dias.




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