• João Ventura

Uma noite em Havana com Hemingway

Atualizado: Mar 2

Na esquina da calle Obispo com a Monserrat, #Hemingway faz-me entrar no Floridita ignorando a chusma de turistas que se acotovelam no interior seduzidos pela auréola do mítico bar. Sentados nos bancos mais chegados à parede com os cotovelos apoiados ao balcão de madeira escura, no lugar onde agora está a sua estátua em tamanho real para gáudio fotográfico de turistas mitómanos, ali colocada para recordar a sua fidelidade do escritor de O Velho e o Mar ao bar onde se bebia o melhor daiquiri de Havana e que ele elegera para cenário de um longo trecho de Ilhas na Corrente, um romance autobiográfico perdido numa das gavetas da sua fazenda Vigia, e sem que qualquer de nós o tivesse pedido, o cantinero Constantino põe-nos à frente dois “gloriosos daiquiris” que ele emborca de um trago e eu vou saboreando sem pressa, enquanto ele já vai no segundo. “Despachei aqui dezasseis numa só noite!” – diz-me -, e Constantino confirma: - “O record da casa!”


Fomos, depois, à Bodeguita del Medio, assim chamada por se encontrar a meio da calle Empedrado: mesas rústicas, bancos de couro, paredes grafitadas com assinaturas dos fregueses, um saxofone abafando as conversas, um pátio que dá para a cozinha em plena ebulição, onde, entre tragos de mojitos, Doña Argelia, que já lá não está, nos fez provar os mistérios da cozinha crioula. Depois de emborcarmos - eu mais do que a conta - vários mojitos temperados com estórias de pescarias nas águas cálidas do golfo e paixões habaneras, como a que teve por Leopoldina, uma mulata de pasmosa beleza que fez sua amante, Hemingway sacou da esferográfica e já sob os eflúvios do rum misturado com sumo de limão e hortelã da legendária bebida inventada por Ángel Martínez, em 1942, escreveu na parede o emblemático aforismo: “My Mojito in La Bodeguita, My Daiquiri in El Floridita”.




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