• João Ventura

Viagem ao coração do horror

Há três anos fui a Auschwitz e escrevi no facebook um texto breve. Talvez, como disse Adorno, fosse "bárbaro escrever" depois de Auschwitz. Mas não, Primo Levi mostrou que isso é possível no seu pungente livro "Se isto é um homem". Eu atrevi-me a contar com as minhas palavras despojadas de poesia o que vi nessa viagem ao fundo da noite. Porque faz hoje 76 anos que o exército soviético libertou o complexo de campos #AuschwitzBirkenau, data que assinala o Dia Internacional das Vítimas do Holocausto volto a publicar essa memória da minha mais dolorosa viagem.



Para entrar em Oswiecim (nome polaco de Auschwitz) pela estrada que vem de Cracóvia que fica a uma hora de distância, é preciso atravessar o caminho-de-ferro, cruzando os mesmos carris por onde passavam os comboios com vagões de mercadorias atulhados de gente de diferentes países da Europa. Primeiro, vêem-se anúncios de oficinas, fábricas e lavandarias. Armazéns. Sé quando se passa junto à estação ferroviária se encontra a primeira tabuleta que indica o caminho para o "Museu de Auschwitz".


Museu Auschwitz-Birkenau. A guia polaca que nos conduz nos barracões do Museu Auschwitz-Birkenau, campo nazi de extermínio (1940-1945), vai contando o horror do que ali aconteceu: “Diziam-lhes que iam tomar banho para desinfecção, pediam-lhes que pusessem nomes nas respectivas malas, que amarrassem os sapatos para não os perder quando saíssem...”. Sinto um nó na garganta, um calafrio percorre-me o corpo e uma lágrima assoma o meu olhar ao contemplar a enorme montanha de sapatos que as vítimas deixaram para trás. Vejo um par de botas de crianças atadas pelos cordões. Vestígios da monstruosidade do crime ali cometido. Centenas de malas, relógios, escovas, montes de cabelos, roupinhas das crianças. Uma maquete com a descrição detalhada dos passos que levavam à morte pelo gás Zyklon B, e num extremo, a vivenda com piscina e jardim e vista para as chaminés dos crematórios, onde o comandante Rudolf Höss residia com a mulher e os filhos.


Birkenau. A três quilómetros de Auschwitz, fica o campo de Bikernau, também conhecido como Auschwitz II. Ainda lá estão alguns dos trezentos barracões onde se amontoavam cerca de dez mil prisioneiros. Uns são de madeira e outros de tijolo.

Entra-se no campo pelo sinistro "portão da morte". Olhando para onde avançam os csarris, avistam-se ao fundo, a cerca de um quilómetro, as ruínas dos fornos crematórios. Tudo ali é desolação. Uma imensa fábrica de morte. Um vagão parado sobre os carris é testemunha silenciosa dos prisioneiros que ali chegaram numa viagem sem regresso. Um amontoado de pedras do que foi um crematório no meio do nada. Vazio. Desolação. Nada melhor do que este vazio para dizer o indizível do que entre estas pedras se passou. Nem mesmo a poesia, como afirmou Adorno. Só quem esteve em Auschwitz pôde contar, sem vacilar, o que lá se passou. #PrimoLevi, que lá esteve, fê-lo, escrevendo Se isto é um homem, contrariando o silêncio a que se remetia a maioria dos sobreviventes, e nesse relato de horror radical descreveu a complexa arquitectura do extermínio. Todos devíamos ler este livro para sabermos o que lá se passou. Para que a história não se repita, como se haveria de repetir nos "gulags" soviéticos e em tantos outros campos de extermínio lento que, depois de Auschwitz, continuam a tingir o mundo de sofrimento e dor.


Faz hoje 76 anos que o campo nazi de extermínio de Auschwitz-Birkenau, perto de Cracóvia, Polónia, foi libertado. Quando lá chegaram, os soldados soviéticos logo descobriram que algo horrível ali tinha acontecido. Segundo dados reunidos depois pelos investigadores, encontraram 600 cadáveres, 7.000 prisioneiros à beira da morte, 837.000 vestidos, muitos deles de crianças, 44.000 pares sapatos e 7,7 toneladas de cabelo preparadas em pacotes para serem transportadas. Eram os despojos de judeus, ciganos, homossexuais e de todos os inimigos do regime, homens, mulheres e crianças, que ali chegaram em vagões numa viagem sem regresso, deportados de França, de Itália, da Noruega, da Roménia, da Hungria, da Grécia...


“Porque sabemos, temos uma escura premonição." Esta foi a frase-mote escolhida no ano passado ano para sublinhar o aniversário dos 75 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau. O seu autor, Zalmen Gradowski, um judeu polaco que foi Sonderkommando [prisioneiros encarregues de lidar com os cadáveres e limpar os fornos crematórios] em Birkenau e que fez parte da revolta de prisioneiros neste campo, em outubro de 1,944, morrendo na tentativa. Uma frase pronunciada há 76 anos, mas que, nestes dias, em que a extrema-direita xenófoba e racista propaga o ódio em discursos inflamados, ganha uma dramática actualidade.


O horror vivido em Auschwitz-Birkenau foi tal ordem que o filósofo alemão Theodor Adorno disse que “escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro”. Existem, porém, livros que provam que é possível escrever depois de Auschwitz. Embora a experiência da visita a Auschwitz-Birkenau seja dolorosa, é um lugar aonde, quem puder, deveria ir. Mas quem não puder ir, poderá fazer essa viagem em livros que relatam o que lá se passou e que, ao contrário do que disse o filósofo alemão Theodoro Adorno, mostram que "escrever [poesia] depois de Auschwitz [não] é bárbaro". Recomendo os seguintes livros:


“Se isto é um homem”, de Primo Levi: uma das mais lúcidas e impressionantes visões dos campos de extermínio nazis; “Sem destino”, de Imre Kertész: considerado por muitos como o melhor livro escrito sobre o Holocausto; “As benevolentes”, de Jonathan Littell: uma confissão sem arrependimento de um ex-oficial nazi; e "Perguntem a Sarah Gros", de João Pinto Coelho, o extraordinário e perturbador romance que vou lendo por estes dias e que me leva numa viagem de papel a percorrer Birkenau à sombra dos choupos que já lá não estão e a caminhar pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, para depois mergulhar numa história brutal de dor e sobrevivência.



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