• João Ventura

Viagem caseira

Atualizado: 17 de Out de 2020

Nos finais do século XVII, depois de se ter batido num duelo, #XavierdeMaistre foi condenado a permanecer no seu quarto, na Via Po, em Turim, durante quarentena e dois dias. Durante essa quarentena obrigatória escreveu Viagem à volta do meu quarto onde faz uma descrição minuciosa do aposento, feita ao jeito de um périplo de descoberta dos mais ínfimos pormenores da mobília e das paredes, para se desdobrar por viagens imaginárias e fantásticas, apenas possíveis na sua imaginação.


“Acabei de completar uma viagem de 42 dias pelo meu quarto. As fascinantes observações que fiz e os infinitos prazeres que experimentei ao longo do caminho me fizeram-me querer compartilhar as minhas viagens com o público, e a certeza de ter algo útil a oferecer convenceu-me a fazê-lo. As palavras não podem descrever a satisfação que sinto no meu coração quando penso no número infinito de almas infelizes às quais estou fornecendo um antídoto seguro para o tédio e um paliativo para os seus males. O prazer de viajar pelo quarto de alguém está para além do alcance do ciúme inquieto do homem: isso não depende das circunstâncias materiais.”


Inspirando-se em #LaoTse, criador da viagem interior: “Sem sair da porta conhece-se o mundo / Sem olhar pela janela vêem-se os caminhos do céu. / Quanto mais longe se sai, menos se aprende” -, e na linha de Sterne, Swift e Tristam Shandy, de Maistre criou uma obra que rapidamente conheceu o sucesso na Europa culta da época e que prenuncia a modernidade, por enfatizar a imaginação e o papel do autor, criando uma nova forma de viajar: gratuita, circunscrita a um espaço, ideal, portanto, para leitura neste tempo de pandemia em que estamos privados de viajar para fora daqui.


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