• João Ventura

Vulcanografias

Ontem à noite, depois de visto nas notícias as imagens do vulcão Fagradalsjall, na Península de Reykjanes, perto de Reiquejavique, derramando um mar de lava e expelindo cinzas tóxicas sobre os céus da Islândia, depois de um sono de mais de setecentos anos, senti-me impelido a explorar alguns livros abissais da minha biblioteca. Livros aparentemente adormecidos, mas que escondem vulcões tão reais como o Fagradalsjall, ou outros inventados, mais estes do que aqueles, para onde me deixei arrastar numa vertigem de leitura, própria, aliás, de quem lê procurando encontrar à beira do abismo passagens, fendas que dão para mundos paralelos de «uma trama mais subtil, uma teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos», como escreveu esse expedicionário de vulcões inventados, Enrique Vila-Matas, em Exploradores do abismo.

Como um explorador de abismos de papel, escalei as estantes da minha biblioteca, para, uma vez chegado àquela «boca do mundo» na península Snaefellsnes, na Islândia, aberta por Júlio Verne em Viagem ao Centro da Terra, descer às entranhas do Snaefell, seguindo o professor e geólogo Otto Lindenbrock, o seu sobrinho Axel e Hans, o atlético guia islandês, eles e eu "embriagados pela voluptuosidade das alturas", num périplo de cinco mil quilómetros de inarráveis perigos e irremediáveis fascínios, através das ocas entranhas e do mar interior do centro da terra, para regressar, depois, ao outro lado do mundo, numa nuvem de cinzas e gazes tóxicos, expelidos pela cratera incandescente do Stromboli.


Empoleirado frente ao inafrontável dos abismos de papel que formam alguns acidentes geográficos da minha biblioteca, voltei a experimentar o mesmo sentimento de vertigem que levou Axel a pensar que não havia «nada mais inebriante do que a atracção do abismo».


Fechei o livro de Verne, mas não escapei à força gravitacional que na última prateleira da estante me arrastou, depois, em descida vertiginosa ao Maelström, que, num delírio onírico, #EdgarAllanPoe descreveu no conto Uma Descida ao Maelstrom, cuja imagem de pendor nihilista da capa tão bem ilustra o vórtice da história enlouquecida atraída irresistivelmente pelo abismo.

Temendo uma queda sem fim através destes vulcões de papel, desci os quatro degraus do escadote de madeira que ergui para espreitar as suas entranhas e sentei-me à minha secretária Debaixo do Vulcão de #MalcolmLowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» (como o descreveu o poeta José Agostinho Baptista), recordando que, há uns anos, indo eu a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a Cidade do México e, depois, se inclina para #Cuernavaca, a cidade que no livro de Malcolm Lowry dá pelo nome de Quauhnahuac, ter por ali deambulado através de um emaranhado de ruas ensolaradas, atravessando um jardim decadente sob um céu em chamas, e respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos, ter cruzado depois o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas, e de, desde ali, já sob os eflúvios etílicos de uma tequila destilada do mais puro agave mexicano, debaixo do Popocatepetl ter procurando decifrar os admiráveis abismos de festa e alucinação por onde, ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do seu alucinante romance mexicano, Lowry vai caindo numa queda sem fim nos abismos do mezcal e da vida.

Que lição retirar desta crónica abismal numa época de queda sem fim? Talvez a lição de não ter medo de cair. Porque talvez tudo dependa do modo como se cai. Porque pode-se cair numa queda sem fim ou cair para a seguir nos levantarmos mais alto. Tudo, então, uma arte da queda, das inclinações, do clinamen.



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