Odisseia da desilusão

"Nenhuma viagem é demasiado longa e perigosa, sobretudo se traz de volta a casa. Mas existem ainda casas onde voltar, alguma vez existiram?", pergunta Salvatore Cippico em Às Cegas, o último livro de Claudio Magris, um oceano de palavras em cujas águas imensas e escuras se misturam matéria ficcional, documental, autobiográfica, ensaística, histórica e epistolar através de uma voz confessional que navega à deriva entre a epopeia e o delírio, entre o mito e a realidade, para depois da funesta travessia regressar não a casa, como Jasão, mas a um manicómio, sem o tosão de ouro cuja busca foi a razão da sua odisseia. (...)

Meditação entre ruínas

Chego ao fim de Os anéis de Saturno, um livro sedimentado numa paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, propondo-nos uma meditação sobre as ruínas que vamos deixando para trás. Essa a paisagem, literal e metafórica, que percorremos com Sebald em Os anéis de Saturno, livro inclassificável (romance, ensaio-diário de viagem, autobiografia, enciclopédia ou tudo isso ao mesmo tempo, encadeado?...) sobre a melancolia do mundo. Meditação entre ruínas, alternada com breves ensaios sobre biografias obscuras, sobre o ciclo de vida dos arenques, a criação de bichos da seda, a natureza das guerras, a destruição das grandes florestas (...)

Viagem ao coração do mal

(...) Dessa subida iniciática do rio que lhe deixaria no corpo um sopro maligno, mas que também mudaria a sua alma - «Navegando pelo rio Congo, deixei de ser um animal para converter-me num escritor» - , contará, mais tarde, Conrad,  pela boca do expedicionário Marlow, seu alter ego no romance Coração das trevas, que publicará em 1902, depois de se ter feito escritor, precisamente, por causa dessa assombrosa viagem ao coração do mal, que nos legou como uma crónica daquela perversão levada a cabo no Congo, entre 1890 e 1900, pelo rei genocida Leopoldo II da Bélgica, originando a morte de quinhentas mil vítimas anónimas que não figuram nos relatórios oficiais. Uma experiência real que, escreveu Conrad, supera a ficção (...)

A última caminhada

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai é W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgatando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado, «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro» (...)

Desaparecidos em trânsito

(...) Assim li Pela estrada fora, numa edição da Ulisseia que guardo, anotada a lápis. E embora depois tenha esquecido o livro, durante muito tempo a minha representação da América foi a que a Sal me ofereceu: os arranha-céus de Nova Iorque, o pôr do Sol vermelho atrás das montanhas, a imensidão do deserto, poços de petróleo na linha do horizonte, o vento embalando os campos de algodão, as águas barrentas do Mississippi, casas com jardim, beatas corroendo o chão de estações de comboio, o «odor devasso de uma grande cidade», São Francisco brilhando como uma joia na escuridão da noite, jazz tocado às escondidas nos bares das cidades suburbanas (...)

Desaparecidos em trânsito

Do caminhante solitário W. G. Sebald chega agora às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer (...)